Augusto entrou no apartamento ainda com o uniforme azul da polícia. O berço pela metade ocupava o meio da sala, as ferramentas espalhadas no chão. Júlia estava sentada no sofá, uma mão na barriga, olhando o pai sem entender a pressa. Rafael parou na porta da cozinha, o rosto tenso. O que ela ainda não sabia era que a verdade sobre a vida dupla do marido ia sair ali, sem volta.
A chegada de Augusto
Augusto não tirou o cinto. Olhou para o berço, depois para a filha.
— Júlia, você precisa vir comigo agora.
Ela franziu a testa. O celular de Rafael vibrou duas vezes na bancada, mas ninguém atendeu. O cheiro de comida na panela ainda estava no ar, esfriando.
A verdade sobre o marido
Rafael deu um passo à frente. A voz saiu baixa.
— Não faz isso aqui, Augusto.
Augusto apertou a mandíbula. Júlia olhou de um para o outro.
— Alguém me explica o que está acontecendo?
O silêncio ficou pesado. O ventilador zumbia no teto. Júlia sentiu o bebê mexer e respirou fundo.
O pedido de explicação
Ela se levantou devagar. Olhou para o marido.
— Rafael, fala. O que meu pai está fazendo aqui de farda?
Rafael passou a mão no rosto. Respirou uma vez, duas.
— Eu não sou só dono de oficina. Eu mexo com outra coisa. Coisa errada.
Júlia piscou. O estômago apertou.
Você não mentiu sobre um trabalho, Rafael. Você mentiu sobre quem é.
As palavras saíram dela antes de pensar. Rafael baixou a cabeça. Augusto não se mexeu.
A decisão de Júlia
Júlia apontou para a porta.
— Sai daqui. Agora.
Rafael ergueu os olhos, mas não discutiu. Pegou o chaveiro e saiu sem olhar para trás. A porta bateu suave. Augusto ficou ali, olhando a filha que segurava a barriga com as duas mãos. Ele pensou em chamar a viatura, em prender o genro ali mesmo. Mas viu o rosto dela, a aliança no dedo, e entendeu que prender naquele instante ia quebrar tudo de vez.
Na manhã seguinte, a chuva batia no vidro da janela. Júlia parou na frente da mesa da sala e deixou a aliança cair devagar sobre a madeira. O berço continuava pela metade, vazio, no mesmo lugar. Ela pensou em ligar para o pai, mas guardou o celular. Rafael mandou três mensagens. Nenhuma foi lida.
