Lia arrumava os pratos no jardim quando Vânia chegou com um sorriso largo. Bruno e Dona Vitória já estavam à mesa, e o ar cheirava a comida fresca. Lia ainda não sabia que aquele almoço ia mostrar algo que ela não esperava.
O almoço no jardim
Vânia serviu um pedaço de pão para Bruno com um gesto delicado. Dona Vitória observava tudo com aprovação. Manu segurava a boneca de pano apertada no colo e não soltava.
Lia caminhava devagar entre as cadeiras, equilibrando a bandeja. Ela via cada movimento de Vânia, como se a outra mulher soubesse exatamente onde olhar e quando sorrir. A taça de cristal na frente de Vânia refletia o rosto dela: o sorriso para os outros, o olhar vazio por dentro.
A taça de cristal
Bruno comentou sobre o tempo bom. Vânia riu baixinho e tocou o braço dele por um segundo. Todo gesto parecia ensaiado. Manu não levantou os olhos do prato.
Quando os adultos começaram a falar de viagens, Lia parou perto da mesa para servir água. Vânia se inclinou um pouco e continuou falando baixo com Dona Vitória. Lia ouviu só o final da frase: “Ouro por fora também pode esconder veneno por dentro.”
Vânia disse que não pretendia cuidar de criança depois de tudo resolvido.
Lia ficou parada por um instante. O prato na mão dela tremeu levemente. Ela já desconfiava, mas agora via o quanto estava certa.
O que Lia ouviu
Bruno não percebeu nada. Dona Vitória sorriu e mudou de assunto. Vânia voltou ao seu tom leve, como se nada tivesse acontecido.
Lia recolheu os pratos vazios e foi até a cozinha. Ela decidiu que ia prestar mais atenção a cada palavra e a cada olhar de Vânia a partir daquele dia. A gravidez ainda era segredo, mas o que acabara de ouvir mudava tudo.
