Marta segurava a bandeja de carne no corredor dos congelados quando Cláudio a tirou de suas mãos sem olhar para o preço. O carrinho estava quase vazio e a luz fria do supermercado fazia tudo parecer mais cansado. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquele dia nem tinha começado.
No supermercado da Penha
Ela tinha feito as contas em casa, separado ovos, arroz e um pedaço de carne para render a semana. Cláudio parou ao lado do carrinho e balançou a cabeça. “Isso não cabe no orçamento”, disse baixo, já empurrando a bandeja de volta para a prateleira. Marta ficou quieta. Tinha aprendido que discutir na frente das pessoas só piorava.
Eles trocaram a carne por salsicha e os ovos por um pacote menor. O total baixou quase vinte reais. Cláudio guardou o troco na carteira sem contar. Marta empurrou o carrinho até o caixa sentindo o olhar da caixa registradora neles.
A parada na perfumaria
Do lado de fora, Cláudio parou de repente. “Espera aqui. Volto já.” Marta ficou com as sacolas nos pés, vendo ele entrar na loja de perfumes. O vidro era escuro, mas dava para ver o balcão iluminado. Ele saiu cinco minutos depois com uma sacola pequena de papel brilhante. Não explicou nada.
Em casa, ela guardou as compras na cozinha. A salsicha foi para a geladeira. Quando abriu o armário do corredor para guardar a sacola de mercado, viu outra sacola enfiada atrás das caixas de sapato. O papel era o mesmo da perfumaria. Um cartão pequeno estava preso com fita: “Pra você, sempre”.
A conta escondida
Marta puxou o embrulho devagar. O perfume era caro, daqueles que custam mais que o aluguel de um mês. Ela virou a sacola e encontrou a nota fiscal dobrada no fundo. O nome do cartão não era o deles. Consta como conta escondida. O pagamento tinha sido feito no mesmo dia, meia hora depois de devolverem a carne.
Ela leu o nome do cartão duas vezes. Nunca tinha visto aquela bandeira. O valor estava ali, claro, sem parcelamento. Pra comida nunca tem dinheiro. Pra isso teve. Marta dobrou a nota de novo e guardou no bolso da calça. Quando ouviu a chave na porta, já tinha decidido que ia olhar melhor aquela conta antes de perguntar qualquer coisa.
