Lúcia parou na calçada quente dos Jardins, a marmita enrolada num pano florido ainda morna contra o corpo. Henrique vinha em direção à porta do restaurante ao lado de Camila e de dois homens de terno. Ela só queria entregar a comida que preparara, nada mais. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquela noite começaria quando abrisse a boca.
A marmita na calçada
O restaurante tinha luzes brancas e vidros limpos. Lúcia reconheceu o filho pela postura, a mão no bolso, rindo baixo de alguma coisa que um dos homens disse. Caminhou devagar, sentindo o peso dos saltos gastos no asfalto. Quando chegou perto, Henrique virou o rosto e continuou andando.
— Henrique — chamou ela, a voz baixa, quase um sussurro.
Ele parou. Camila olhou para Lúcia, depois para o filho dele, à espera de uma explicação. Henrique apertou o maxilar.
O chamado que ele não quis ouvir
Lúcia deu mais um passo. O pano florido escorregou um pouco e revelou o pote de alumínio.
— Trouxe o que você gosta. Feijão tropeiro com linguiça da feira.
Henrique olhou ao redor. Os dois homens pararam de falar. Ele respirou fundo e disse:
A senhora está me confundindo.
A frase saiu seca, sem hesitação. Lúcia piscou, o prato ainda quente nas mãos. Camila franziu a testa, mas não perguntou nada. Henrique fez um gesto para o funcionário que vinha abrindo a porta.
Otávio chega e muda o rumo
O carro de Otávio parou na calçada. Ele desceu rápido, terno escuro, olhos atentos. Reconheceu Lúcia no mesmo instante e caminhou direto até ela, ignorando o olhar de Henrique.
— Lúcia, que surpresa boa. Entre comigo. Deixa essa marmita que o garçom cuida.
Ele pegou o braço dela com delicadeza e a conduziu para dentro, sem esperar resposta. Henrique ficou na porta, os dois investidores em silêncio, Camila ainda com a dúvida no rosto. Dentro do salão, a taça de vinho de Henrique continuava intacta na mesa, esperando alguém que não voltaria tão cedo.
