O envelope continuava sobre a mesa da cozinha quando a batida forte na porta velha acordou Dona Maçã. Clara já estava de pé, mas hesitou antes de atender. O que ela ainda não sabia era que aquela manhã ia transformar a dívida em algo que ninguém conseguiria resolver sozinho.
A dívida da casa chega sem aviso
O homem do outro lado da porta se apresentou como cobrador judicial. Entregou um papel grosso com o brasão do cartório e pediu que Dona Maçã assinasse o recebimento. Ela olhou para Clara, que já lia o documento por cima do seu ombro. A casa estava listada como garantia de um empréstimo que nunca fora quitado.
Clara leu em voz baixa os valores e as datas. O nome do tomador era de Melâncio. Dona Maçã sentou na cadeira mais próxima. O prato com pão amanhecido ficou ali, esquecido.
Clara tenta segurar o que resta
Clara ligou para o escritório do advogado que conhecera no centro. Pediu orientações sobre contestar a penhora. Enquanto falava, Dona Maçã só repetia que não queria perder o teto que construíra sozinha. O cobrador esperou do lado de fora, fumando.
Abacácio chegou uma hora depois. Trouxe o nome do homem que recebera o dinheiro do empréstimo fraudulento. Era um conhecido de Melâncio, dono de uma loja de eletrônicos que fechara havia dois meses. Ninguém sabia onde ele estava agora.
O retorno que ninguém esperava
Melâncio apareceu no final da tarde. Parou na calçada ao ver o aviso preso na porta. Entrou sem bater. Olhou para a mãe, para Clara e para o papel que ainda estava na mesa. A voz saiu baixa.
Você roubou dinheiro, Melâncio. Agora estão vindo buscar o teto da sua mãe.
Ele não respondeu de imediato. Depois contou que entregara o valor a um homem que prometera dobrar tudo em três meses. O homem sumira. Melâncio tinha voltado porque ouvira no bar que a casa ia ser tomada.
Dona Maçã não chorou. Apenas pediu que ele saísse do quarto dela. Clara ficou em silêncio, olhando o envelope que ainda não fora aberto. Abacácio guardou o nome do homem no bolso e disse que ia tentar encontrá-lo. Melâncio ficou na sala, sem saber para onde ir. Nos dias que vieram depois, Clara começou a guardar distância, Abacácio admitiu que o ciúme tinha apressado a revelação do segredo, e uma mulher desconhecida chegou ao bairro segurando metade de uma fotografia rasgada.
