Melâncio não parava de olhar o papel que Abacácio tinha deixado na mesa. A cópia era velha, as letras desbotadas. Ele ainda não sabia que aquilo ia tirar o chão de todos.
A cópia que chegou sem explicação
Abacácio bateu na porta cedo, entregou o envelope sem entrar. Disse só que Melâncio precisava ver aquilo sozinho primeiro. Depois saiu. Melâncio abriu o papel no meio da sala. O nome de Dona Maçã aparecia escrito por cima, em letra diferente.
Ele leu duas vezes. A data do registro não batia com o que sempre ouvira. Chamou Clara, que ainda estava na cozinha.
O confronto na sala
— Mãe, vem aqui — chamou ele, a voz baixa. Dona Maçã apareceu devagar, secando as mãos no pano. Clara ficou parada perto da porta, sem saber se devia ficar ou sair. Melâncio estendeu a certidão. O nome dela estava incluído depois.
Dona Maçã olhou o papel e sentou. O silêncio ficou pesado. Ela já desconfiava que um dia isso aconteceria, mas não assim, não com Clara olhando.
Você não saiu de mim, mas foi em mim que você aprendeu a chamar alguém de mãe.
Ela contou devagar. Uma mulher apareceu na porta do hospital, com o bebê enrolado num pano. Falou que voltava, mas nunca voltou. Dona Maçã registrou o menino como filho para não deixá-lo no sistema. Melâncio sentiu o peito apertar.
O que sobrou depois da verdade
Ele se levantou devagar. Não gritou. Só pegou a jaqueta no encosto da cadeira. Clara deu um passo à frente, mas ele ergueu a mão. — Preciso pensar — disse. Saiu pela porta dos fundos sem olhar para trás. A certidão ficou na mesa, dobrada de novo.
Dona Maçã ficou sentada, olhando o pano nas mãos. Clara começou a juntar os pratos do café que esfriavam. Do lado de fora, o portão bateu. Ninguém falou por alguns minutos. Depois Clara notou o envelope de conta que tinha chegado na caixa de correio, com o nome da casa como garantia de algo que ela ainda não entendia.
