Melâncio guardou o dinheiro recuperado na gaveta por três dias. Ele sabia que só palavras não convenciam Dona Maçã. O tênis caro continuava debaixo da cama, intacto, como prova do que ele ainda era capaz de mudar.
O tênis dentro da caixa
Ele tirou o tênis da caixa de sapato velha e olhou para os números na etiqueta. O valor que conseguiria vender cobriria parte das contas atrasadas. Abacácio ficou na porta da cozinha, sem entrar, só observando.
— Você vai mesmo fazer isso? — perguntou Abacácio.
Melâncio assentiu. Colocou o tênis na caixa, fechou e saiu para a rua. Quando voltou à tarde, tinha notas na mão e o recibo da venda.
O primeiro salário inteiro
Clara chegou no fim da tarde. Melâncio empurrou o envelope por cima da mesa.
— É tudo que consegui até agora. Vai para as dívidas da casa.
Dona Maçã não tocou no envelope. Ela mexeu o café frio com a colher, devagar.
— Eu não quero dinheiro que aparece de repente. Quero saber se você vai continuar acordando cedo.
Clara olhou para os dois. Depois disse que precisava se afastar por um tempo. Que amor não ajudava ninguém se a vida dele ainda estava desarrumada.
A conversa que Abacácio evitou
Abacácio esperou Clara sair. Ele sentou na cadeira de plástico da varanda e olhou para o chão.
— Eu contei sobre a certidão antes da hora. Meu ciúme falava mais alto. Desculpa.
Dona Maçã não respondeu. O silêncio ficou ali, entre os três, até Melâncio se levantar e guardar o envelope na gaveta das contas.
Gratidão que não é só palavra
No dia seguinte, Melâncio acordou antes do sol. Ele calçou o sapato velho, pegou a marmita que Dona Maçã tinha preparado e saiu sem fazer barulho. Dona Maçã ficou na janela, vendo ele virar a esquina.
Enquanto ela lavava a xícara, uma mulher parou na frente da casa. Segurava a outra metade de uma fotografia velha, rasgada ao meio. A mulher olhou para cima, hesitou, e chamou pelo nome de Dona Maçã.
Gratidão não é dizer obrigado, meu filho. É parar de fazer sofrer quem nunca desistiu de você.
