Bento acordou antes do sol naquela manhã de sábado e foi direto para a obra. O caminhão vermelho de Tico descansava sobre uma pilha de tijolos, coberto de poeira fina. Ele o pegou, limpou com o dedo e guardou no bolso da calça. O que ele ainda não sabia era que as últimas peças do quebra-cabeça sobre o nascimento do menino estavam prestes a se encaixar.
A reunião marcada por Dr. Laranjo
Dr. Laranjo chegou à sala de reuniões da clínica com uma pasta grossa debaixo do braço. Bento, Melina e Caio já estavam sentados. O geneticista colocou os documentos sobre a mesa e falou baixo. “Houve troca de identificação na maternidade. Os exames confirmam que nenhum dos senhores é o pai biológico.”
Melina cobriu o rosto com as mãos. Caio ficou em silêncio por um tempo longo, depois balançou a cabeça. “Eu não tenho mais o que fazer aqui.” Ele se levantou e saiu sem olhar para trás. Bento apertou o braço da cadeira até doer.
O pedido de desculpas de Melina
Quando ficaram sozinhos no carro, Melina olhou para a frente e falou sem rodeios. “Eu traí. Não tem jeito de explicar isso que não seja feio. Eu só queria que a gente voltasse.” Bento ficou olhando o trânsito parado na Avenida Celso Garcia. “Eu sei. E eu também errei muito.”
Ela chorou quieto. Bento estendeu a mão e segurou a dela. Nenhuma palavra resolveu nada, mas o gesto ficou ali.
O pai que escolheu ficar
Bento chegou em casa já no fim da tarde. Tico estava no quintal, empilhando blocos de madeira. O menino ergueu a cabeça quando viu o pai. Bento se agachou na altura dele e tirou o caminhão vermelho do bolso. “Isso aqui é seu. Eu guardei porque não sabia se ia ficar.”
Tico pegou o brinquedo e o colocou de volta na mão do pai. “Você vai embora de novo?” Bento respirou fundo. “O sangue explica de onde ele veio; não decide quem segurou a mão dele todos esses anos.” Ele abraçou o menino e ficou assim por um minuto. Eu fico, pensou, enquanto ele quiser me chamar de pai.
Eu continuo sendo seu pai se você quiser me chamar assim.
Melina apareceu na porta dos fundos e ficou olhando. Bento se levantou, ainda segurando a mão de Tico. “A gente vai ter que falar com a outra família. Descobrir o resto. Mas isso aqui continua sendo nossa casa.”
Dr. Laranjo entregou os documentos às autoridades no dia seguinte. A clínica abriu investigação interna. Bento e Melina marcaram a primeira reunião com os pais biológicos de Tico para a semana seguinte. Ninguém sabia como seria. O menino ainda brincava com o caminhão vermelho no quintal, agora iluminado pelo sol da manhã.
