O depósito de barris cheirava a carvalho velho e vinho adormecido. A luz fraca de uma lâmpada pendurada batia nos aros de ferro enferrujados, criando sombras longas que se moviam com o vento que entrava pela porta entreaberta. Clara parou no meio do salão de pedra, sentindo o chão ranger sob os sapatos.
Do lado de fora, o vento da Serra Gaúcha carregava o cheiro de uva pisada. Lara examinava as prateleiras com os olhos atentos, enquanto Henrique permanecia na entrada, braços cruzados, como se pudesse impedir com o corpo o que as filhas estavam prestes a encontrar.
A tábua que rangeu sob o peso
Clara avançou até o canto mais escuro. Seu pé encontrou uma irregularidade no assoalho e parou. O silêncio ficou denso quando ela se ajoelhou e forçou a madeira solta. Uma tábua cedeu com um estalo seco, revelando um vão estreito.
Dentro, uma carta amarelada estava presa por um barbante fino. O papel tremulou entre seus dedos quando ela a puxou. Henrique deu um passo à frente, mas parou ao ver o olhar de Lara.
O que a avó guardou por décadas
Clara desdobrou a folha com cuidado. As letras escritas à mão tremiam sob a luz fraca. Lara aproximou-se e leu por cima do ombro da irmã, o rosto mudando à medida que as palavras apareciam.
Henrique apertou os punhos. O passado que ele tentara esconder agora estava ali, negro sobre o papel amarelado. A carta da avó explicava que as gêmeas, juntas, detinham a maioria das ações da vinícola desde o nascimento, desde que fossem reconhecidas.
Vocês não chegaram aqui para pedir um lugar; esta casa já estava no nome de vocês.
Clara ergueu os olhos para o pai. O silêncio que se seguiu pesou mais que qualquer grito. Lara guardou a carta no bolso, o gesto lento e decidido.
A sombra que escutou tudo
Do lado de fora, atrás de uma pilha de barris vazios, Emily permaneceu imóvel. As mãos apertavam a barra do casaco. Ela ouvira o suficiente. O coração batia forte contra as costelas enquanto observava Henrique olhar as filhas com uma mistura de orgulho e medo.
Quando as três saíram do depósito, Emily esperou até que o eco dos passos sumisse. Depois se afastou depressa, já decidida. No corredor principal, interceptou Henrique antes que ele alcançasse o escritório.
— O casamento será em três dias — disse ela, voz baixa e cortante. — Não há mais tempo.
Henrique parou, o rosto marcado pela tensão que não conseguia esconder. Atrás dele, a porta do depósito bateu com o vento, um som seco que pareceu ecoar por toda a vinícola.
