A manhã de sábado invadia a Doces da Dalva pelo balcão aberto. O cheiro de fubá torrado misturava-se ao café passado na hora e ao doce de baunilha que escapava da vitrine embaçada. Clientes se apertavam no pequeno salão, trocando moedas e papos rápidos.
Dalva cortava fatias com precisão, a manga da blusa branca já manchada de açúcar. Um pedaço de bolo de milho esperava no prato de um homem de terno surrado. Ele levou o garfo à boca, mastigou uma vez e cuspiu tudo no piso branco.
O cuspe que parou o balcão
O bolo caiu em pedaços úmidos. O homem bateu o prato na mesa e gritou que aquilo era veneno. Outros clientes recuaram, olhando o chão e depois Dalva. O silêncio durou dois segundos longos antes de virar murmúrio.
Ela limpou as mãos no avental, o coração batendo contra as costelas. O gosto de sal grosso ficou no ar, impossível de ignorar. Não era a receita da avó. Não podia ser.
A mulher da vitrine branca
Vanessa apareceu na porta, celular erguido. Gravava tudo com um sorriso que não chegava aos olhos. A bolsa de couro batia na coxa enquanto ela entrava sem pedir licença. O cheiro de perfume caro sobrepôs o café por um instante.
— Isso é comida de pobre, feita sem técnica nenhuma. — A frase saiu clara, filmada, destinada a viralizar.
Isso é comida de pobre, feita sem técnica nenhuma.
Seu Bento chegou do mercadinho ao lado, braços abertos para afastar os curiosos. Dalva não respondeu. Voltou para a cozinha estreita, o piso rangendo sob os pés. O pote de sal estava aberto sobre a bancada, longe do lugar onde sempre guardava.
O que ficou para trás
A luz amarela da lâmpada velha caía sobre a tigela vazia. Restos de massa grudavam nas bordas. Dalva parou, o avental ainda amarrado na cintura. Alguém tinha passado por ali depois dela.
Do lado de fora, Vanessa guardou o celular e sorriu para a rua. O bairro já comentava. Dalva fechou a porta da cozinha com as costas, o coração pesado.
