O ponto de ônibus na zona leste ainda dormia sob a luz cinzenta do amanhecer. Um vento fino carregava o cheiro de pão fresco das padarias vizinhas, enquanto Jaqueline apertava a bolsa contra o peito.
A moto passou devagar pela calçada, farol baixo apontado para ela. No bolso do avental, o envelope de dinheiro amassado queimava como carvão vivo.
O envelope amassado no bolso
Jaqueline subiu no ônibus lotado e encostou a testa no vidro embaçado. Cada solavanco da rua parecia sacudir a culpa dentro dela. O silêncio dentro do casaco era mais barulhento que o motor.
Vanessa enviava mensagens uma após a outra. “Não fale nada. Ainda não.” Jaqueline guardou o celular sem responder.
Grãos de sal na bancada
Dalva já estava na cozinha quando Jaqueline chegou. A bancada ainda guardava traços da noite anterior: farinha espalhada, tigela virada. Dalva correu os dedos sobre a madeira e parou em pequenos cristais brancos.
Grãos de sal colados ao avental de Jaqueline. Dalva os colheu com dois dedos e ergueu a mão.
— Isso aqui não caiu do céu.
Jaqueline recuou um passo. O avental tremeu em suas mãos.
A ajudante que treme
Dalva aproximou-se devagar, olhos fixos no rosto da moça. O cheiro do café passado mais cedo pairava entre elas, denso como acusação.
— Você ficou sozinha aqui ontem de manhã. Só você.
Jaqueline baixou a cabeça. Lágrimas quentes escorreram pelo queixo e caíram sobre a bancada.
Ela me pagou, Dalva, mas eu juro que não sabia que ia destruir tudo.
Dalva deu um passo atrás. O ar pareceu faltar na cozinha pequena.
— E a receita da Vó Cida? Ela também pediu?
Jaqueline assentiu, quase imperceptível. O envelope caiu no chão, notas verdes se espalhando como folhas secas.
O pote de sal, ainda aberto na prateleira, refletia a luz da janela como um olho acusador.
