O salão do concurso paira sob luz fria de holofotes. O pote de sal repousa no centro da mesa dos jurados, como prova de um crime que ninguém ainda nomeou. Uma mancha branca se espalha devagar sobre a toalha escura.
Dalva segura a borda da bancada. Jaqueline caminha até o microfone com passos curtos. Vanessa sorri para a câmera, mas seus dedos apertam o colar de pérolas.
O pote que não mente
Jaqueline para diante dos jurados. O silêncio aperta a garganta de todos. Ela olha Dalva uma vez, depois desvia.
Não dá mais para fingir, pensa a ajudante enquanto respira fundo.
— Eu coloquei o sal na massa — diz ela, voz baixa mas clara. — Vanessa me pagou.
A verdade que queima
Vanessa dá um passo à frente, mas o juiz levanta a mão. O sal derramado brilha sob a luz. Dalva não pisca.
Renato observa da plateia, maxilar travado.
Jaqueline continua: — A receita que entreguei era incompleta. A Maison nunca fez nada sozinha.
Você nunca criou nada, Vanessa, nem a mentira que contou hoje.
O sal que volta para a mesa
Vanessa tenta falar, mas o juiz a interrompe. Os três jurados olham o pote, depois as duas confeiteiras.
— Sem receita escrita — determina o homem do centro. — Apenas memória e técnica. Agora.
Dalva sente o peso da colher de pau no bolso do avental. Vanessa empalidece.
O palco espera.
