A luz dourada do fim de tarde entrava pela vitrine da Doces da Dalva e parava sobre o bolo que esfriava no balcão. O cheiro de massa quente ainda pairava no ar, misturado ao leve aroma de baunilha que subia do fundo da cozinha. Um cartão de visita branco descansava ao lado de uma fatia que soltava vapor.
Dalva limpou as mãos no pano de prato sem tirar os olhos do bolo. Ela já sabia que aquele pedaço representava mais do que açúcar e farinha. Representava a primeira vez que voltava a confiar nas próprias mãos depois da humilhação.
O homem de camisa azul no balcão
Renato entrou devagar, a camisa azul clara contrastando com as paredes coloridas da confeitaria. Ele parou diante do balcão e apontou para a fatia quente sem pedir licença. Dalva serviu em silêncio, observando a forma como ele levava o garfo à boca e demorava o tempo exato para sentir o sabor.
— Está diferente do que imaginei — ele disse por fim. — Está vivo.
Ela sentiu o peito apertar. Ninguém havia falado daquela forma sobre seu bolo desde o dia em que a massa saiu salgada.
Uma proposta que cheira a armadilha
Renato deixou o garfo no prato e empurrou o cartão de visita na direção dela. O nome da empresa estava gravado em letras sóbrias, sem brilho desnecessário. Dalva leu o nome e não tocou no papel.
— Quero que você participe do concurso com sua receita original — ele falou baixo. — E quero ser sócio minoritário para que ninguém mais consiga roubar o que é seu.
Dalva recuou um passo. O medo de ver outra vez alguém de fora comprando o que sua família guardava há gerações subiu pela garganta como fumaça.
Vanessa nos bastidores
O celular vibrou sobre a mesa. Dalva viu o nome de Vanessa na tela e não atendeu. Renato percebeu o gesto e apertou os lábios. Ele sabia que a outra confeitaria já estava espalhando boatos sobre a instabilidade emocional da confeiteira da vila.
— Ela quer que você desista antes mesmo de começar — ele disse. — Não dê esse gosto a ela.
Dalva olhou para a colher de pau escura que Vó Cida havia deixado sobre a forma. O objeto parecia pequeno demais para carregar tanto peso.
A condição que ninguém esperava
— Eu aceito participar — Dalva respondeu por fim. — Mas tem uma condição.
Renato esperou, sem interromper. O silêncio entre eles ficou denso como a massa descansando.
Você tem algo raro, Dalva, e raro não se vende por medo.
Ela pegou a colher de pau com cuidado, como quem segura uma herança que ainda pode ser perdida. — Eu cozinho com a colher da minha avó. Só assim.
Renato assentiu devagar, como quem aceita um pacto que não cabe em contrato. Do lado de fora, o sol já tinha baixado e deixado apenas um filete de luz dourada atravessando o vidro.
