O sol se punha sobre o cais de Portovelho, tingindo as águas de um vermelho sangue. Um barco antigo afundava devagar junto ao píer, seu casco rangendo como se carregasse todos os segredos da família Montenegro.
Isabela parou no fim da doca. O vento agitava seu cabelo escuro. Rafael surgia das sombras do armazém, o casaco esvoaçando.
O barco que afundava em silêncio
Isabela deu um passo à frente. Seus olhos encontraram os dele sem piedade. O cheiro de algas e diesel pairava no ar parado.
Rafael apertou os punhos. A dívida com a máfia pesava em seus ombros como corrente. Ele sabia que a gravação de Júlia já circulava entre os advogados.
O silêncio se alongou. Isabela notou o anel que ele ainda usava no dedo mínimo, o mesmo que o pai lhe dera.
O olhar que não devia demorar
— Você veio para acabar o que começou — disse ela, voz baixa.
Rafael engoliu em seco. A paixão que um dia os unira voltava agora como lâmina. Ele deu um passo, mas parou.
Ela já sabia de tudo. O testamento falsificado, as dívidas, o caso de Júlia com o advogado. Tudo exposto na festa.
Eu te amei e você me destruiu.
Isabela sentiu o peito apertar. O barco afundava um pouco mais, bolhas subindo à superfície.
A bala que ecoou na noite
Rafael avançou. Seus dedos roçaram o braço dela. Por um segundo, o mundo parou no cais.
Então o tiro soou. Um estampido seco que atravessou o entardecer. Isabela viu o sangue manchar a camisa de Rafael. Ele caiu de joelhos, olhos ainda fixos nela.
Júlia surgiu do carro negro, a pistola tremendo na mão. A polícia chegou segundos depois, mas o dano estava feito.
Isabela ajoelhou ao lado do meio-irmão. O império desmoronava como o barco no cais. A mansão das mentiras perdera seu último segredo.
O mar engoliu o casco por completo. Apenas um farol piscou na distância, anunciando que a verdade, enfim, chegara.
