A chuva fina caía sobre a avenida de Copacabana, transformando os postes em lâminas de luz que tremiam no asfalto molhado. Marinalva apertava o casaco fino contra o corpo, sentindo o frio subir pelas pernas enquanto o ônibus demorava. O ponto de parada parecia vazio, exceto pelo eco distante de uma buzina e o cheiro de terra molhada que subia do chão.
Thiago surgiu do outro lado da rua, o paletó escuro já escurecido pela água. Ele parou a poucos passos, hesitou, depois ergueu um guarda-chuva preto e se aproximou sem dizer palavra. O tecido se abriu entre os dois, criando um pequeno teto de silêncio sob a neblina.
O guarda-chuva que uniu dois mundos
Marinalva recuou um centímetro, mas o ombro dele tocou o dela por acidente. O calor inesperado contrastava com a água gelada que escorria do cabelo de ambos. Nenhum dos dois se moveu para afastar o contato.
— Você não devia estar aqui — murmurou ela, olhos fixos no horizonte molhado.
— Eu vi você sair da casa da Suzane. A proposta ainda está de pé — respondeu Thiago, voz baixa, quase engolida pela chuva.
Ele segurava o guarda-chuva com firmeza, mas os dedos tremiam levemente. O orgulho de Marinalva lutava contra a necessidade que apertava o peito. O ônibus passou sem parar, respingando água nos sapatos dela.
A proposta que ela não queria aceitar
Thiago tirou um envelope do bolso interno do paletó e o estendeu devagar. A papelada dentro cheirava a tinta fresca e a algo mais antigo, como cera de salão.
— Não é caridade. É investimento. Você tem visão para o que o Espelho Dourado nunca entendeu.
Marinalva não tocou no envelope. Ela já sabia que aceitar significaria misturar seu nome ao dele para sempre. O silêncio entre eles pesou mais que a água que caía.
O olhar que não devia existir
Os olhos de Thiago desceram até a boca dela por um segundo a mais. Marinalva sentiu o calor subir pelo rosto, mas virou o rosto para a rua. A paixão proibida nasceu ali, no espaço estreito do guarda-chuva, sem que nenhum dos dois ousasse nomeá-la.
— Você tem talento demais — disse ele, voz rouca.
Você tem talento demais.
Marinalva fechou os olhos. O ônibus finalmente parou, mas ela não subiu. O envelope ainda pairava entre os dedos dele, intacto.
Do outro lado da avenida, uma mulher de casaco branco observava do carro estacionado. Clarisse Viana ajustou o retrovisor e sorriu de leve antes de ligar o motor.
