O salão Rainha do Salão ainda cheirava a tinta fresca e a flores de abertura. A luz da tarde caía sobre os espelhos limpos, refletindo o piso de mármore que Marinalva polira com as próprias mãos.
Rafaela estava ali, no centro da sala, de joelhos. O cabelo destruído caía em mechas ralas sobre os ombros, resto de uma ruína que ela mesma causara.
O joelho dobrado no piso de mármore
Marinalva parou a poucos passos. A tesoura pendia de sua mão, afiada, ainda úmida do último corte. O silêncio pesava como o vapor da chapinha desligada.
Rafaela ergueu o rosto. Os olhos inchados não combinavam com a maquiagem que escorria.
— Eu não tinha direito, murmurou. — Me ajuda ou eu perco tudo.
Me ajuda ou eu perco tudo.
A tesoura caída ao lado
A lâmina escorregou dos dedos de Marinalva e bateu no chão com um tinido seco. O som ecoou entre as poltronas vazias.
O orgulho dela não permitia ajoelhar-se também. Suzane observava da porta dos fundos, mão no ventre, sem interferir.
Rafaela continuou: — Meu cabelo postiço era o último segredo. Sem ele, as marcas de dívida aparecem. Tudo desaba.
O segredo que escapa dos lábios
Marinalva sentiu o peito apertar. A humilhação do passado voltava, mas agora invertida. A cliente rica implorava como quem nunca precisou de nada.
— Você jogou água no meu rosto, disse ela, voz baixa. — Agora pede perdão com o cabelo em frangalhos.
Rafaela baixou a cabeça. Lágrimas caíam no mármore, pequenas poças que brilhavam sob a luz.
A porta que se abre de novo
Do lado de fora, passos soaram. Dona Lúcia entrou sem bater, envelope grosso na mão. O cheiro de perfume caro misturou-se ao ar do salão.
Marinalva não se moveu. O olhar dela encontrou o de Rafaela mais uma vez. Nada estava resolvido.
A prova da herança secreta estava prestes a mudar o chão sob seus pés.
