A cozinha pequena de Marinalva exalava o cheiro de café requentado. A lâmpada sobre a mesa piscava, lançando sombras que dançavam no caderninho aberto. Ela traçava números com a caneta, mas os zeros não fechavam.
Suzane encostou na porta, o avental ainda cheirando a esmalte. O silêncio pesava entre elas, carregado de tudo que não precisava ser dito.
A lâmpada que se recusava a apagar
Marinalva ergueu o olhar. O caderno tremia levemente em suas mãos. Suzane sentou sem pedir licença, empurrando uma xícara fumegante para a amiga.
— Eles querem que você desapareça, né? — murmurou Suzane.
Marinalva fechou o caderno. O orgulho queimava mais que a lâmpada fraca. Ela pensou no filho Gabriel, nas contas, na tesoura que caíra no chão do Espelho Dourado.
— Eu não vou pedir esmola pra Dona Lúcia — respondeu. A lâmpada piscou forte, depois acendeu firme.
Vou ser a dona do meu destino.
Suzane sorriu de canto, mas os olhos brilhavam úmidos. Elas sabiam que dinheiro era o muro entre o sonho e a rua.
O número que não fechava
Marinalva folheou páginas. Cada valor escrito era um tapa. Suzane apontou para uma coluna.
— Eu ajudo com o que tenho. Mas não chega.
O cheiro de café misturava-se ao silêncio. Marinalva apertou a caneta. Recomeçar exigia mais que orgulho ferido.
A porta que bateu no momento certo
Três batidas secas ecoaram. Marinalva ergueu-se. Thiago estava na soleira, o terno impecável contrastando com a luz pobre da cozinha. Ele segurava uma pasta.
— Posso entrar? Tenho uma proposta.
Suzane olhou para Marinalva. O coração dela bateu mais forte, sem saber por quê. A lâmpada iluminava o rosto dele como um farol inesperado.
Thiago deixou a pasta sobre a mesa, ao lado do caderno. Parceria soava como palavra proibida.
