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A Rainha do Salão — Capítulo 3: A demissão que abriu a porta

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Dona Lúcia oferece uma indenização mísera para calar Marinalva. No vestiário do Espelho Dourado, uma tesoura cai e o orgulho de uma cabeleireira decide não se vender.

A Rainha do Salão — Capítulo 3: A demissão que abriu a porta — cena da novela

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O vestiário do Espelho Dourado cheirava a condicionador barato e desespero. Marinalva dobrava o avental com movimentos lentos, os dedos tremendo contra o tecido branco. A tesoura que usava toda manhã jazia ao lado da bolsa, esquecida.

A porta rangeu. Dona Lúcia entrou sem bater, o envelope fino apertado entre os dedos.

O avental jogado no chão

Marinalva largou o avental. Ele escorregou até o piso frio como uma bandeira rendida. Suzane ficou na ombreira, os olhos inchados de tanto chorar pelo vídeo que ainda rodava.

Dona Lúcia estendeu o envelope. “Isso cobre tudo. Assina e some.” A voz dela soava oleosa, como se o dinheiro pudesse apagar o jato d’água que Rafaela jogara na cara de Marinalva.

Marinalva não tocou no papel. Sentiu o cheiro de café requentado que sempre subia do andar de baixo e pensou em quantas vezes servira xícaras para clientes que agora riam dela nas redes.

A tesoura que escorrega

A tesoura rolou do banco. O barulho ecoou mais alto que qualquer grito. Suzane mordeu o lábio, impedindo-se de falar. Dona Lúcia sorriu de canto, certa de que o silêncio valia mais que qualquer indenização.

“Aqui quem manda sou eu”, disse a dona do salão, a frase cortando o ar como lâmina.

Aqui quem manda sou eu.

Marinalva olhou para a tesoura no chão. Por um segundo pensou em pegá-la, devolver a lâmina à mão de quem a humilhara. Em vez disso, virou as costas e fechou a bolsa.

O filho que chega

Gabriel apareceu na porta, uniforme do colégio sujo de giz. Ele parou ao ver a mãe de avental no chão e o envelope ainda na mão de Dona Lúcia.

“Mãe”, chamou ele, a voz firme apesar dos treze anos. “Você é a melhor cabeleireira do Brasil.”

Ninguém respondeu. O silêncio pesou como o cheiro de loção que nunca saía das paredes. Marinalva sentiu o orgulho do filho como uma ferida aberta e, ao mesmo tempo, como a única coisa que ainda cabia no bolso.

Suzane apertou o braço da amiga. Dona Lúcia guardou o envelope de volta no bolso, sabendo que a porta do salão acabara de se fechar para sempre.

A luz do corredor piscou uma vez. Marinalva saiu sem olhar para trás, o filho ao lado, o futuro ainda sem endereço.