O lustre de cristal do salão de reuniões do Hotel Monteverdi refletia luz vermelha sobre a mesa de mogno. O mar lá fora batia contra as janelas altas, um som surdo que ninguém parecia ouvir. Clara parou na porta, o vestido colado ao corpo como uma ferida aberta.
Eduardo sentiu o ar faltar. Seus dedos apertaram o braço da cadeira. Valentina observava do fundo, os olhos estreitos, sem piscar.
O reflexo que ninguém queria ver
Clara caminhou devagar até a cabeceira. Colocou a pasta sobre a madeira escura. O cheiro de café frio misturava-se ao perfume caro que deixara no ar. O silêncio pesava como o vidro que protegia o mar.
— Eu sou a nova sócia majoritária — disse ela, voz baixa e firme. Deslizou os papéis para o centro da mesa. Um por um, os conselheiros baixaram os olhos.
Eduardo empalideceu. A xícara escorregou de seus dedos e quebrou no chão.
A prova que o fogo revelou
Clara abriu a pasta. Fotografias, extratos, transferências. Tudo organizado, tudo datado. O desvio estava ali, preto no branco. Ninguém ousou tocar nos documentos.
Valentina inclinou-se para frente, o colar de ouro balançando contra a pele. Eduardo apertou os maxilares. O relógio na parede marcava o tempo que ele não conseguia recuperar.
Eu voltei para pegar tudo que você me roubou.
O toque que chegou tarde
O celular de Clara vibrou dentro da bolsa. O toque cortou o ar como uma lâmina. Ela não atendeu de imediato. Quando o fez, a voz do outro lado era distorcida, urgente.
— Seu filho está em perigo — disse a voz. Depois, só silêncio.
Clara fechou os olhos por um segundo. O mar continuou batendo. O lustre continuou girando sua luz vermelha sobre o chão.
No corredor, Raul passou rápido, o jaleco do segurança ainda úmido de chuva. Uma sombra se moveu na janela da suíte presidencial. Uma porta bateu ao longe, ecoando pelo corredor vazio.
