A chuva tamborilava contra os vidros da suíte presidencial do Hotel Monteverdi. A luz baixa de um abajur dourado iluminava o tapete persa, onde pedaços de papel fotográfico já começavam a encharcar.
Clara segurava a tesoura com a mão firme. Eduardo e Bianca a observavam do outro lado da sala, imóveis.
A foto rasgada na suíte presidencial
Os fragmentos caíam devagar, como confetes de um casamento que nunca existiu. Eduardo deu um passo à frente, mas parou quando Clara ergueu os olhos.
— Isso não muda nada — murmurou ele.
Bianca riu baixo, o som cortante. — Sai daqui antes que eu chame segurança de verdade.
Clara largou a tesoura sobre a mesa de mármore. O metal tocou a superfície com um clique seco.
Esse filho nunca vai chamar você de pai.
Bianca congelou. O silêncio que se seguiu pesava mais que a chuva lá fora. Eduardo olhou para Clara, depois para a ex-mulher, a cor sumindo de seu rosto.
O segredo que escapou na meia-noite
Bianca avançou, os saltos afundando no tapete. — Grávida? De quem?
Clara não respondeu. Apenas tocou a barriga por baixo do casaco aberto, um gesto quase involuntário. Eduardo recuou até encostar na poltrona.
Do corredor, Raul observava pela fresta da porta entreaberta, o rosto contraído.
O laudo que Raul encontrou no cofre
Enquanto a discussão ecoava na suíte, Raul deslizou até o escritório anexo. O cofre que Clara havia deixado aberto continha mais que documentos de sociedade. Ele puxou o envelope amarelo, leu o cabeçalho do laudo e sentiu o estômago apertar.
Envenenamento. O pai de Eduardo não tinha morrido de ataque cardíaco.
Raul guardou o papel no bolso interno do paletó e fechou o cofre sem fazer barulho.
Do lado de fora, o elevador de vidro desceu iluminando o mar negro. Clara caminhava sozinha pelo corredor, a mão ainda na barriga. Uma porta se abriu atrás dela, mas ela não virou. Apenas o som dos passos de Raul se aproximando rompeu o silêncio que restava.
