A mão de Rafael toca a de Isabela quando ele estende a nota de crédito para o garçom. Apenas um segundo. Uma fração de tempo que não deveria significar nada.
Mas significa.
Isabela sente o calor da pele dele — a palma firme, os dedos longos, o anel de ouro branco brilhando sob a luz roxa da boate como uma advertência que ela ignora. Seu corpo inteiro tensa. Aquele toque não era acidental. Ele sabia exatamente o que fazia.
O dedo que queima
Ela retira a mão rápido demais, derramando um pouco de gelo do copo no balcão. O som — mínimo, cristalino — ecoa como um grito entre eles.
Rafael sorri. Aquele sorriso que mata.
“Nervosa?” A voz dele é baixa, apenas para ela, apesar da música que vibra nas paredes. “Você não parecia nervosa quando chegou.”
Isabela força um riso — aquele riso que ela ensaiou em frente ao espelho do banheiro da boate, o riso de uma mulher que não tem nada a perder. Mas agora sente o coração acelerado, e ódio e desejo se misturam no peito como veneno e mel.
Isso não pode acontecer.
Ela conhece a história. Conhece cada detalhe do que Rafael fez. Seu pai perdeu tudo — a empresa, a casa, a dignidade — por causa de um golpe que Rafael orquestrou sete anos atrás. Um golpe que ninguém conseguiu provar. Um golpe que destruiu uma família enquanto ele erguia impérios.
Mas quando ele a olha assim, com aqueles olhos cinzentos que parecem ler tudo que ela tenta esconder, Isabela sente a razão desaparecendo como fumaça.
Veneno e mel
“Talvez você me intimide,” ela diz, e é verdade — mas não da forma que ele pensa. Ela o intimida porque o deseja. E isso a aterroriza.
Rafael inclina o corpo para perto. O cheiro dele — colônia cara, roupa de seda, poder — invade os pulmões dela. “Você não parece o tipo de mulher que se intimida com facilidade.”
“Então você me conhece?”
“Ainda não.” Ele passa o dedo sobre o vidro do copo vazio entre eles, deixando um rastro na condensação. Um gesto simples que parece indecente. “Mas quero.”
Você me intriga de um jeito perigoso.
A frase sai da boca dele como uma sentença. Isabela sente o chão desaparecer. Ela veio para destruir este homem. Veio para se infiltrar na vida dele, ganhar sua confiança, extrair seus segredos e depois — depois — deixá-lo em ruínas como ele deixou sua família.
Mas aquele toque ainda queima na sua mão.
“Perigoso é meu sobrenome,” ela responde, e vê a pupila dele dilatar. Ele gosta disso. Ele gosta do perigo. E isso a assusta porque ela também gosta — gosta dele, quando não deveria gostar de nada além da vingança.
O olhar que observa
Do outro lado da boate, sentada em uma mesa de vidro com uma taça de champanhe intocada, Lara Montenegro observa tudo.
Seus olhos — iguais aos de Rafael, mas muito mais frios — acompanham cada movimento, cada aproximação, cada sorriso. Ela não é boba. Ela conhece o irmão desde o dia em que nasceu, e nunca o viu se inclinar para uma mulher assim. Nunca o viu deixar uma mão próxima à outra por tempo demais.
Lara bate o dedo na taça, um gesto que faz o garçom se aproximar instantaneamente. “Quem é aquela mulher no bar? A bartender.”
O garçom pisca. “Isabela, senhora. Trabalha aqui há… três meses, acho.”
Três meses. Lara faz a conta. Exatamente quando Rafael começou a aparecer na boate com frequência — algo que ele nunca havia feito antes. Seus negócios o mantêm em escritórios de vidro e aço, não em boates. Nunca em boates.
Até agora.
Ela observa o irmão pagar a conta com o cartão de crédito preto — aquele que dispensa limite — e Isabela roça a mão dele por uma fração de segundo. Um toque que poderia ser acidental.
Mas Lara sabe tudo sobre toques que não são acidentais.
O preço da verdade
Quando Rafael sai da boate, Isabela o acompanha com os olhos. Ele vira a cabeça uma vez — apenas uma — e ela vê aquele sorriso novamente. Um sorriso que promete e ameaça ao mesmo tempo.
Bruno aparece ao seu lado como fantasma, apoiando os cotovelos no balcão. “Você está brincando com fogo, Isa.”
“Eu sei o que estou fazendo.”
“Sabe?” Bruno a estuda com aquele olhar protetor que a irrita e a comove simultaneamente. “Porque de onde eu estou vendo, você esqueceu por que começou isso tudo.”
Isabela não responde. Não consegue. Porque sabe que ele tem razão. Aquele toque — apenas um segundo, apenas pele contra pele — apagou algo importante dentro dela. Uma linha que ela havia traçado com cuidado.
Ela alcança o copo vazio que Rafael deixou para trás. Ainda há resquícios de uísque no fundo. Ela o coloca sob a pia, deixando a água quente correr, e observa o vidro ficar limpo. Transparente. Vazio.
Do outro lado da boate, Lara termina seu champanhe e pega o telefone. Seus dedos percorrem a tela com precisão. Ela conhece um investigador privado. Discreto. Caro. E muito, muito bom naquilo que faz.
A mensagem é simples: “Descobra tudo sobre a bartender. Nome completo, passado, família, razão de estar aqui. Rápido.”
Ela aperta enviar e sorri para o reflexo no vidro escuro da boate. Ninguém se aproxima de Rafael Montenegro sem que Lara saiba exatamente por quê.
E quando ela descobre, não há lugar no mundo onde se esconder.
