A taça de vinho tinto escorregou pelos dedos de Lara Montenegro como se a porcelana da mão de seu irmão fosse de repente repugnante. O cristal Baccarat explodiu contra o mármore da sala de estar, deixando uma mancha carmesim que parecia sangue. Rafael nem piscou. Ele continuou de pé diante da lareira, silhueta recortada contra as chamas, esperando que a irmã finalmente explodisse por completo.
A penthouse de Rafael flutuava acima de São Paulo. Lá em cima, longe dos olhos da rua, ele acreditava estar seguro. Lara entrou como se aquele fosse seu território — porque, em um sentido, era. Ela conhecia cada segredo guardado nas paredes, cada documento escondido nos painéis de madeira. E agora, algo novo a inquietava. Algo chamado Isabela.
O facho de desconfiança
Lara havia visto tudo. A mão dele tocando a de Isabela. O modo como ele olhou para aquela mulher — não como Rafael Montenegro olhava para uma mulher comum. Havia fome naquele olhar. Havia risco.
“Quem é ela?” A voz de Lara cortou o silêncio como vidro. “Essa bartender. A que você não consegue tirar os olhos de cima.”
Rafael girou devagar. Os olhos dele — azuis como vidro derretido — fixaram-se nos dela.
“Não é da sua conta.”
“Tudo que você faz é da minha conta.” Ela caminhou em círculos ao redor dele, como um predador. Seus saltos ecoavam no piso de madeira clara. “Porque quando você comete erros, eu limpo a bagunça. Quando você deixa rastros, eu apago. E agora você quer trazer uma estranha para o meio da nossa família?”
“Estou apenas conhecendo alguém.”
“Mentira.” Ela parou diante dele. “Você a quer. Vi no seu rosto na boate. E isso me preocupa porque ninguém simplesmente conquista Rafael Montenegro sem ter uma razão. Ninguém.”
O palpite que corrói
Rafael serviu-se de outro vinho, deliberadamente lento. Cada gesto era uma recusa silenciosa de explicar-se. Mas Lara conhecia aquele silêncio — era o silêncio do homem que está escondendo algo.
“Ela trabalha em uma boate de luxo,” continuou Lara, os dedos deslizando pela lombada de um livro na estante. “Classe média baixa, segundo as informações que consegui. Sem conexões familiares relevantes. Sem herança. Sem poder.” Ela virou-se para ele com um sorriso que não alcançava os olhos. “Então por que você a quer?”
“Porque sim.”
“Porque sim não é resposta. É desculpa.” Ela sentou-se no sofá de couro preto, cruzando as pernas com precisão. “Essa mulher quer algo de nós. Eu sinto.”
“Essa mulher quer algo de nós.”
Rafael não respondeu. Ele sabia que Lara tinha intuição sobre pessoas — era um dos seus talentos mortais. Mas o que ele não sabia era que Lara estava certa. O que ele não sabia era que, naquele exato momento, Isabela estava em seu apartamento no Brás, deitada na cama, com o celular na mão, relendo a mensagem que havia chegado minutos atrás.
“Preciso vê-la. Amanhã à noite. Sozinha.”
Assinado por Rafael.
O veneno que circula
“Vou investigar,” disse Lara, levantando-se. “Vou descobrir quem ela é, de onde veio, e por que está aqui.”
“Não vai fazer nada disso.”
A voz de Rafael saiu baixa, perigosa. Lara piscou — uma fração de segundo em que o poder na sala mudou de mãos. Ele havia se movido, estava agora entre ela e a porta, e havia algo no seu rosto que ela não havia visto desde a noite em que seus pais descobriram a verdade sobre os negócios dele.
“Você está me ameaçando?” perguntou ela, forçando uma risada.
“Estou dizendo que Isabela não é da sua conta. Ela é minha. E se você tocá-la com um dedo, se você disser uma palavra sequer a alguém sobre ela, você vai descobrir exatamente por que eu tenho o poder que tenho nesta cidade.”
Lara sentiu o frio descer pela espinha. Havia algo verdadeiro naquele tom. Havia possessão.
Ela passou por ele em direção à porta, os ombros rígidos. “Você está cego. E cegos tropeçam.”
“Talvez,” respondeu Rafael, retornando ao vinho. “Mas não sozinho.”
O chamado que seduz
Enquanto Lara descia pela garagem da penthouse, Isabela recebia a confirmação de presença do seu encontro. Ela não deveria ir. Ela sabia disso. Cada célula do seu corpo gritava que aquilo era um erro — um desvio do plano, uma fratura na armadura que ela havia construído tão cuidadosamente.
Mas seus dedos já estavam digitando: “Onde?”
A resposta veio em segundos: um endereço. Um rooftop. Amanhã, meia-noite.
Isabela deitou-se na cama no escuro, com o celular ainda brilhando contra seu rosto. Ela pensou em Rafael. Pensou em seus olhos. Pensou na sensação que tivera quando sua mão tocou a dela — um formigamento que desceu até seu peito e se alojou ali como uma brasa.
Ela também pensou em Bruno. Em como ele a havia olhado quando voltou à boate após aquele primeiro encontro com Rafael. Como se soubesse que algo tinha mudado. Como se soubesse que ela já não era inteiramente dele — se é que alguma vez fora.
E pensou em sua mãe. Na noite em que tudo ruiu. No rosto dela quando descobriu que Rafael Montenegro havia assinado os papéis que destruíram a empresa do seu pai. Papéis que ninguém sabia que existiam. Papéis que ninguém poderia ter acesso.
Exceto Rafael.
Isabela fechou os olhos. Amanhã à noite, ela teria respostas. Ou perderia tudo. A linha entre vingança e rendição era tão fina que ela mal conseguia vê-la mais.
