A cozinha da mansão exalava o perfume caro de café moído na hora e flores frescas cortadas ao amanhecer. No piso de mármore branco, uma taça de cristal jazia estilhaçada, o vinho tinto espalhando-se como sangue sobre o chão impecável. Larissa ajoelhava-se no meio da poça, as mãos tremendo enquanto recolhia os cacos com um pano.
Valentina erguia o queixo, o anel de diamante reluzindo sob a luz do lustre enquanto apontava para a jovem copeira. O silêncio pesava como uma sentença. Do corredor distante, passos masculinos se aproximavam devagar.
A taça que revelou o desprezo
Larissa pressionava o pano contra o líquido vermelho, tentando conter o estrago sem levantar os olhos. O cheiro ácido do vinho misturava-se ao seu suor frio. Valentina deu um passo à frente, saltos finos estalando no mármore.
— Mais uma vez você estraga tudo, murmurou a matriarca, a voz cortante como vidro quebrado. Larissa engoliu em seco, o joelho doendo contra o piso frio. Ela só queria terminar o expediente e voltar para a laje.
O dedo que apontava para o chão
Valentina curvou-se ligeiramente, o perfume de patchouli invadindo o ar ao redor da copeira. O olhar dela queimava mais que o vinho derramado. Larissa sentia o rosto quente, mas manteve as mãos ocupadas recolhendo os cacos.
— Levanta essa sujeira agora. A voz de Valentina ecoava pela cozinha vazia. Larissa obedeceu sem resposta, o coração apertado dentro do peito.
O olhar que atravessou a porta
Enzo parou na entrada, terno escuro contrastando com a alvura da cozinha. Seus olhos encontraram os de Larissa por um segundo que pareceu eterno. Ela sentiu o ar faltar. Valentina virou-se, o colar de pérolas balançando contra o decote.
Gente da sua laje nunca vai subir na vida!
Larissa ergueu o queixo só o suficiente para encontrar o olhar dele novamente. Enzo não se moveu. O silêncio entre os três vibrava como corda prestes a romper.
