O silêncio da mansão era cortado apenas pelo tilintar distante de cristais sendo recolhidos. A luz do corredor caía oblíqua sobre o piso de mármore, criando sombras longas que pareciam guardar segredos. Larissa segurava o pano ensopado contra o peito, os passos leves ecoando como um pedido de perdão que ninguém ouvia.
Enzo surgiu no final do corredor, o paletó ainda impecável apesar da tensão nos ombros. Ele parou a poucos metros, o olhar preso no rosto dela marcado pela vergonha recente. O ar parecia mais denso ali, carregado do cheiro de café frio e perfume caro.
A mão que quase tocou a dela
Larissa recostou-se na parede fria, os dedos tremendo levemente ao redor do pano. Enzo deu um passo à frente, a voz baixa e cortante. — Eles não vão acreditar em você. Ela ergueu o queixo, os olhos brilhando com uma mistura de raiva e súplica. A proximidade dele aquecia o ar entre os dois, mas o risco de passos na escada mantinha tudo suspenso.
Os dedos dele pairaram no ar, quase roçando os dela. Uma taça esquecida sobre o aparador refletia a luz como um testemunho silencioso. Larissa murmurou, a voz rouca: — Preciso provar que não fui eu. Enzo fechou os olhos por um segundo, o peso da covardia materna apertando o peito.
Segredos sussurrados entre paredes
O corredor parecia estreitar-se ao redor deles. Larissa deu um passo para trás, mas o olhar de Enzo a segurava no lugar. — Minha mãe destrói quem ameaça o nome da família. As palavras saíam curtas, cada uma como uma lâmina. Ela sentiu o coração bater forte contra as costelas, o cheiro de madeira antiga misturando-se ao perfume dele.
Um olhar demorado trocou-se entre eles, carregado de tudo que não podia ser dito em voz alta. A mão de Enzo desceu devagar, os nós dos dedos roçando o ar a milímetros da pele dela. Larissa engoliu em seco, o desejo de justiça misturando-se ao calor proibido que subia pela garganta.
Eu te amo desde o primeiro dia.
Passos que ameaçam tudo
Um rangido distante na escada fez os dois se afastarem num instante. Enzo endireitou o paletó, o rosto voltando à máscara de herdeiro. Larissa apertou o pano contra o peito, o gosto amargo de humilhação ainda na boca. O silêncio voltou, agora mais pesado, como se as paredes tivessem testemunhado o instante roubado.
Ela desceu os degraus dos fundos, o coração ainda acelerado. A imagem da mão que quase se tocou ecoava na mente como uma promessa perigosa. Lá fora, a noite de São Paulo engolia a mansão, mas o olhar trocado no corredor já havia mudado o rumo de tudo.
