O salão Espelho Dourado brilhava sob a luz do fim de tarde em Copacabana. Clientes folheavam revistas enquanto o cheiro de xampu e laquê pairava no ar. Marinalva penteava com precisão, o sorriso discreto refletido no espelho que ocupava toda a parede.
Do lado de fora, o mar batia contra a calçada. Dentro, o silêncio era quebrado apenas pelo zumbido das secadoras. Dona Lúcia observava do balcão, os olhos atentos a cada movimento.
O pente que parou no ar
Marinalva ajustou o último cacho da cliente. O espelho devolveu seu rosto sereno, mas os dedos apertavam com força a escova. Rafaela entrou rindo alto, o celular já na mão, e parou ao lado da cadeira.
Não olhe para cima, pensou Marinalva. A influenciadora aproximou-se devagar, taça de água cristalina na mão.
A taça que voou sem aviso
Rafaela ergueu o braço num gesto lento. A água gelada acertou o rosto de Marinalva de supetão. O líquido escorreu pelo queixo, manchou o jaleco branco e pingou no chão de mármore.
O salão inteiro congelou. Clientes viraram a cabeça. O orgulho de Marinalva ardeu como fogo enquanto o chão engolia a taça estilhaçada em mil pedaços.
Você não passa de uma empregadinha.
Dona Lúcia correu até elas, o rosto pálido. Perdeu tudo em segundos, pensou Marinalva, o gosto de água e vergonha na boca.
A demissão selada no balcão
A voz de Dona Lúcia saiu baixa e cortante. Marinalva foi dispensada no mesmo instante. Rafaela já gravava stories, o celular apontado para o rosto molhado da cabeleireira.
Marinalva tirou o jaleco, dobrou-o com cuidado e saiu sem olhar para trás. A porta do salão bateu com um estalo seco.
