No escritório de Helena Vargas, a luz do fim de tarde entrava pelas persianas de madeira escura, pintando listras douradas sobre a mesa de mogno. Um envelope amarelado jazia aberto ao lado do telefone. Helena segurava uma folha de papel entre os dedos longos, os olhos fixos no nome que nela estava escrito.
Lucas observava do outro lado da sala, os ombros tensos sob o terno impecável. O silêncio era cortado apenas pelo ranger da cadeira quando ela se inclinou para a frente.
O papel que caiu como neve
Helena dobrou a folha ao meio. Depois mais uma vez. O som seco do rasgo ecoou no cômodo. Pedaços brancos se soltaram e desceram devagar até o tapete persa, como flocos que não pertenciam àquele verão carioca.
— Isso não vai ficar assim, ela disse, voz baixa e cortante.
Lucas deu um passo à frente. Ele já sabia que qualquer palavra errada poderia piorar tudo.
A oferta que carrega veneno
Clara terminava de limpar a mesa central da cafeteria Oceano quando o celular vibrou. A mensagem era curta: “Venha ao endereço anexo às 19h. Assunto: seu futuro.” O nome de Helena Vargas brilhava na tela.
Às sete em ponto, Clara parou diante do portão de ferro do sobrado em Ipanema. A porta se abriu antes que ela tocasse a campainha.
Helena estava de pé no hall, um copo de água na mão. — Entre, ordenou, sem sorriso.
Trabalho de espiã
Lucas chegou atrasado, ainda com a pasta do escritório debaixo do braço. Encontrou as duas na sala de visitas: Clara de uniforme simples, Helena recostada na poltrona de veludo.
Ele sentiu o cheiro de café que ainda vinha da xícara que Clara não havia tocado.
Helena inclinou a cabeça.
Trabalhe para mim… e eu te mostro quem realmente manda.
Clara apertou a alça da bolsa. Lucas olhou para o chão, onde uma migalha de papel ainda brilhava sob a luz do abajur.
O segredo que ele não esperava
Quando Clara saiu, Lucas ficou mais um minuto. Helena já tinha virado as costas para o bar, servindo um copo de uísque. Ele notou o frasco de comprimidos ao lado da garrafa — o rótulo virado para baixo.
— Você não vai conseguir esconder isso para sempre, murmurou Lucas.
Helena não respondeu. O copo tocou a bancada com um som seco.
