A cidade respira sob a noite de São Paulo. Lá em cima, no rooftop do edifício de vidro e aço, apenas dois corpos e o silêncio que precede o caos.
Isabela chegou dez minutos antes. Esperou de braços cruzados, o vento noturno levantando os fios de cabelo que escapavam do penteado perfeito. Ela sabia que vinha para ser destruída — ou para destruir. Ainda não tinha certeza qual das duas coisas era verdade.
Rafael surgiu da escada de emergência como sempre surgia: com a certeza de quem nunca esperou por nada na vida. O terno escuro colado no corpo. Os olhos — aqueles olhos que ela aprendera a odiar — procurando apenas por ela.
O ar que queima antes da chama
Ele caminhou devagar. Ela sentiu cada passo como se fosse um batida no peito.
“Você veio,” disse Rafael, e não era pergunta. Era constatação. Era posse.
“Não deveria,” respondeu Isabela. A voz saiu rouca, menor do que gostaria. Ele não pode saber que estou com medo.
Rafael parou a um metro de distância. Longe demais para tocá-la. Perto demais para ela respirar direito. “Sabe o que descobri sobre você, Isabela?”
O coração dela acelerou. Sabe. De alguma forma, ele sabe.
“Que você é exatamente como eu imaginava. Perigosa. Calculista.” Ele deu um passo adiante. “E que eu não consigo parar de pensar em você.”
Ela deveria ter recuado. Deveria ter saído daquele rooftop, descido aquelas escadas e desaparecido da vida dele para sempre. Mas os dedos de Rafael já estavam no seu rosto, tocando a mandíbula como se tocasse algo sagrado.
“Isso é um erro,” sussurrou Isabela.
“Sim,” concedeu Rafael.
“O maior erro que você pode cometer.”
“Provavelmente.”
E então ele a beijou.
O veneno entra pela boca
Não foi um beijo de novela açucarada. Foi um beijo de guerra. De boca aberta e respiração acelerada e mãos que seguravam como se soltassem significasse morte. Rafael a pressionou contra a mureta do rooftop, o vidro frio nas suas costas, a altura infinita abaixo deles — e Isabela o beijou de volta com toda a raiva, toda a dor, toda a paixão tóxica que carregava há meses.
Ela sentiu as lágrimas escorrerem antes de perceber que estava chorando.
Rafael recuou apenas o suficiente para olhá-la nos olhos. Sua mão ainda na nuca dela, segurando, controlando.
“Isso é um erro… mas eu não consigo parar.”
As palavras saíram do peito de Isabela como se fossem veneno. Como se fossem verdade.
Ele a beijou de novo. E ela — ela deixou. Porque naquele rooftop suspenso entre a cidade e as estrelas, a vingança desapareceu e restou apenas uma mulher que amava o homem errado da forma errada.
“Eu vou te magoar,” disse Isabela contra a boca dele, e não era ameaça. Era profecia.
“Eu sei,” respondeu Rafael, e continuou beijando.
O espelho rachado
Quando voltou para o apartamento três horas depois, Isabela encontrou Bruno sentado no sofá da sala. Esperando. Os olhos vermelhos de choro que ele tentava esconder atrás de uma raiva performática.
“Onde você estava?” perguntou Bruno, e a voz dele era cortante de um jeito que ela nunca tinha ouvido.
Isabela fechou a porta devagar. Seu batom estava manchado. Seu cabelo, despenteado. Seu pescoço tinha marcas vermelhas que nenhuma quantidade de maquiagem conseguiria esconder amanhã.
“Não é da sua conta,” disse ela.
Bruno se levantou. A mão tremendo. “Você estava com ele. Com o Montenegro.”
Silêncio. O silêncio de quem não consegue mentir.
“Isa, você não pode…” Bruno deu um passo adiante, e ela viu nos olhos dele toda a lealdade que ele oferecia, todo o amor que ela nunca pediu. “Você planejava destruir esse homem. E agora…”
“Agora eu estou confusa,” terminou Isabela, a voz pequena demais.
“Confusa não é desculpa.” Bruno pegou o casaco. Seus movimentos eram precisos, finais. Como de quem está fechando uma porta pela última vez. “Você prometeu. Você me prometeu que não deixaria ele te cegar.”
“Eu não deixei.”
“Mentira.” Bruno olhou para ela como quem olha para uma estranha. “Ele destruiu sua família, Isabela. E você está caindo na armadilha dele.”
Ela sabia que ele tinha razão. Sabia disso com a mesma clareza com que sabia que Rafael era capaz de qualquer coisa. Mas o beijo ainda queimava na sua boca. As mãos dele ainda estavam na sua pele. E tudo aquilo que ela planejou tão cuidadosamente estava desaparecendo como fumaça.
Bruno saiu batendo a porta. Não foi um bate-porta de raiva. Foi um bate-porta de despedida.
A foto rasgada
Sozinha no apartamento, Isabela caminhou até o quarto. Debaixo do colchão, onde ninguém procuraria, estava a caixa. Fotografias antigas. Documentos. Provas do que Rafael havia feito.
E no topo, a foto de sua mãe. Viva. Sorrindo. Antes de tudo desabar.
Ele destruiu você, sussurrou Isabela para a imagem. E eu prometi que ia destruí-lo de volta.
Mas quando fechou os olhos, não viu o rosto de sua mãe. Viu apenas Rafael. Os olhos dele. A forma como ele a olhava como se ela fosse a única coisa real naquele rooftop infinito.
Isabela guardou a caixa de volta no lugar. Ainda havia tempo para decidir. Ainda havia tempo para escolher entre o amor e a vingança.
O celular vibrou. Uma mensagem de Rafael: “Voltaria àquele rooftop comigo amanhã?”
Ela deveria deletar. Deveria bloquear. Deveria lembrar por que começou tudo isso.
Em vez disso, digitou: “Sim.”
E em algum lugar da cidade, Lara Montenegro olhava uma foto de Isabela em sua mesa, com um sorriso que não promovia nada de bom.
