5 min de leitura

O Sabor do Morro — Capítulo 2: Quem cozinha com o coração

Novelas grátis pra assistir

Escolha uma novela e assista todos os episódios liberados.

Uma tarde quente revela segredos guardados há 50 anos. Quando Matteo Colombo descobre que a bolonhesa da Vó Lurdes tem raiz italiana e alma carioca, o cartão dourado na mesa deixa de ser apenas um …

O Sabor do Morro — Capítulo 2: Quem cozinha com o coração — cena da novela


A tarde caía preguiçosa sobre o salão do Sabor da Vó. Ventilador de teto girava sem pressa, empurrando o ar quente que teimava em ficar. Garçom havia recolhido os últimos pratos do almoço — mesas vazias, cadeiras de madeira encostadas, aquele silêncio que só vem depois que a fome saciada se vai embora.

Publicidade

Matteo Colombo ainda estava lá.

Ele ocupava a mesa de canto, a mesma onde havia comido, onde aquela colher de pau do Davi havia tocado a panela pela última vez. Diante dele, um copo de água morna e um cartão de visitas dourado — Matteo Colombo, Chef Proprietário, Cantina da Nonna, São Paulo — pousado sobre a toalha xadrez como um convite que ninguém havia feito.

A desconfiança que vira deslumbramento

Vó Lurdes saiu da cozinha enxugando as mãos no avental. Ela havia sentido aquele homem sair do silêncio — aquele silêncio que só acontece quando alguém prova algo que não esperava provar. Ela conhecia aquele silêncio. Era o silêncio que ela mesma fazia quando sentia que o tempo tinha sabor.

Ele se levantou quando a viu chegar. Gesto de quem aprendeu educação em mesa de gente fina.

Dona Lurdes? Preciso saber uma coisa. Onde o senhor aprendeu essa bolonhesa?

A velha puxou uma cadeira sem pedir licença. Sentou-se devagar, como quem senta no próprio trono.

Aqui. Nesse restaurante. Há vinte anos.

Não. Antes. Essa receita não nasceu aqui.

O olhar dela não tremeu. Vó Lurdes tinha 75 anos e havia guardado segredo por 50 — conseguia guardar mais um silêncio se fosse preciso. Mas Matteo não piscava. Ele esperava como quem sabe que toda receita tem uma história, e toda história tem uma boca que fala.

Eu servi numa casa grande no Flamengo, rapaz. Lá pelos anos 60. Família italiana que havia vindo de Gênova. O patrão tinha um primo que era chef — ensinava a cozinha da avó dele, que era toscana. Eu limpava, eu cozinhava junto, eu aprendia tudo vendo, tudo ouvindo.

Matteo inclinou a cabeça. Aquele gesto que os italianos fazem quando reconhecem verdade.

E o dendê? E a pimenta-de-cheiro?

Isso aqui é Brasil, filho. Receita italiana que não aprende a falar português não presta. Molho de avó é molho que respira aonde a avó respira.

Ele recostou na cadeira. As mãos dele tremiam um pouco — a voz também.

Quantas pessoas comem essa bolonhesa?

Aqui? Umas cem pessoas por semana. Alguns vêm todo dia. Alguns vêm uma vez só mas nunca esquecem.

Você sabe o que você tem, Dona Lurdes? Você sabe?

A velha sorriu. Aquele sorriso de quem já sabe tudo e está apenas deixando os outros descobrir.

O cartão que pesa mais que ouro

Davi apareceu na porta da cozinha, a bandeja vazia nas mãos. Viu o italiano em pé, viu a avó com aquele sorriso, viu o cartão dourado sobre a mesa. Seu corpo inteiro ficou suspenso entre o desejo de chegar perto e o medo de merecer estar ali.

Senta aqui, neto. Esse homem quer conversa.

Davi sentou. Matteo o olhou como quem olha uma obra que ainda está sendo feita, mas que já promete beleza.

Seu avó era quem?

Não tive avó não, senhor. Meu pai morreu pequeno. Minha mãe me criou com a Vó aqui.

Seu avó italiano?

Não, senhor. Meu avó era quem? — Davi se virou pra Vó Lurdes, e ela riu, aquele riso que saía do peito.

Seu avó é essa panela, filho. Sua avó sou eu.

Matteo se inclinou para a frente. As mãos dele apontavam para o cartão, mas os olhos apontavam para o Davi.

Você cozinha desde que idade?

Desde os 8 anos, senhor. Aqui na laje.

Aprendeu com quem?

Com ela — apontou pra Vó. — E com a vida.

Quem cozinha com o coração não erra, filho.

A voz de Vó Lurdes atravessou o silêncio da tarde como se dissesse a coisa mais óbvia do mundo. Matteo piscou. Duas vezes.

Marcão pesquisa e o mundo muda de tamanho

Marcão, irmão mais velho, estava na cozinha quando tudo isso acontecia. Ele fingiu que não ouvia nada, mas ouve tudo quem quer — e Marcão queria. Quando Matteo saiu, quando a tarde virou noite, quando Dona Rosa começou a preparar a janta, Marcão pegou no celular e digitou: Matteo Colombo chef.

O que ele viu o deixou imóvel.

Cantina da Nonna. Estrela Michelin. Reportagem em revista de gastronomia. Foto de Matteo em programa de TV nacional. Prêmios. Reconhecimento. O nome dele em letras que brilhavam na tela pequena do celular como se fossem neon em São Paulo.

Marcão mostrou pra Rosa sem dizer nada. Dona Rosa leu tudo com as mãos tremendo um pouco. Depois olhou pra porta da cozinha aberta, pro lado onde Davi ainda estava sentado ao lado da Vó, ouvindo histórias de receita, de tempo, de sangue que vira comida.

Que Deus nos ajude — sussurrou Rosa, e voltou pro fogão.

Naquela noite, ninguém dormiu bem. Vó Lurdes dormiu sorrindo — sabia que o tempo que tinha era pouco e que estava gastando cada segundo no lugar certo. Rosa acordava a cada hora, olhando pro teto. Marcão revia a página de Matteo Colombo três vezes. E Davi, deitado na rede da laje, olhava as luzes de Copacabana piscando longe, muito longe, como se fossem uma promessa que alguém havia feito pra ele sem ele ter pedido.

Matteo, em seu hotel cinco estrelas na Zona Sul, sentado na poltrona da suíte com um café que não era bom, pensava em receita. Pensava em sangue. Pensava em sucessor.

E marcou na agenda: quinta-feira, 10h, Sabor da Vó. Terno claro. Proposta séria. Vida que muda.