A manhã chegou com luz branca e pesada, aquela luz que só existe em dias de decisão. Davi ouvia o barulho da rua lá embaixo — motos, vozes, o sorveteiro cantando sua melodia antiga — mas dentro do restaurante o silêncio era denso, quase sólido. Ele secava louça na cozinha aberta quando Dona Rosa sussurrou algo pro Marcão, que saiu da sala pra buscar Vó Lurdes. Genival, o irmão mais velho, apareceu da cozinha dos fundos com as mãos ainda molhadas. Algo ia acontecer.
Quando Matteo entrou, o terno claro — linho, corte perfeito, cinza-pérola — refletiu nos azulejos antigos da pia e pareceu fora de lugar como uma joia dentro de uma caixa de madeira. Ele trazia um mapa de papel debaixo do braço e os olhos atentos de quem sabe que aquele minuto vai mudar alguma coisa para sempre. Vó Lurdes já estava na cadeira de sempre, perto do fogão. Rosa de pé, os braços cruzados. Genival encostado no batente da porta. Marcão na bancada, fingindo mexer com alguma coisa.
O terno que desceu o morro
Matteo cumprimentou cada um com precisão — um aperto de mão firme, um sorriso que não chegava aos olhos, uma reverência quase teatral pra Vó. Davi sentiu o coração acelerado. Seu chef, seu ídolo de revista, estava ali embaixo da laje com o terno de Cantina da Nonna, com aquele cheiro de colônia cara e confiança que só o dinheiro compra.
Ele vinha mesmo fazer o que eu acho que vem.
—Dona Lurdes — Matteo puxou uma cadeira, sentou-se na altura dos olhos dela, gesto que Rosa notou e que mudou algo no seu rosto. —Aquela bolonhesa não é sua invenção, certo? Você aprendeu em algum lugar.
Vó sorriu daquele jeito que sorri quando a gente acerta. —Aprendi cozinhando, meu filho. E aprendizado não tem dono. Só quem cozinha sabe disso.
Matteo assentiu, respeitoso. Depois se virou pra Davi.
—Seu avó era italiano?
—Não, senhor. Meu avó era da Paraíba — respondeu Davi, a voz saindo mais fina do que queria.
Matteo abriu o mapa. Era o mapa da Cantina da Nonna — as cozinhas, as salas, os fornos. Tinha anotações à mão, cálculos, nomes de pratos.
—Eu tenho quarenta e cinco anos. Nunca tive filho. Tenho duas cozinhas, três restaurantes em sociedade, e não tenho ninguém pra passar adiante o que aprendi. — Ele levantou, andou até Davi. —Você tem talento bruto. Humildade demais, ambição de menos, mas talento. Eu vejo isso em cinco minutos de uma cozinha.
Rosa respirou fundo. Genival piscou lentamente.
—Quero oferecer seis meses. Você vem pra São Paulo. Fica na minha casa, come na minha mesa, trabalha comigo na Cantina. Salário. Aprendizado. Estrutura. — Matteo estendeu um envelope. —Aérea marcada pro próximo segundo. Você responde em três dias.
Filho, vai. Mas leva a gente no coração.
A voz saiu de Vó Lurdes como quem sussurra uma bênção. Rosa virou de costas, fingindo mexer com algo na pia. Marcão saiu da cozinha sem aviso. Genival balançou a cabeça muito devagar, aquele gesto que significa caraca sem precisar falar.
Três dias é pouco
Davi sentiu as pernas fracas. Matteo cumprimentou cada um de novo, deixou o envelope em cima da mesa — papel caro, nome da Cantina em relevo — e saiu com aquele passo seguro de quem sabe que plantou uma bomba e vai esperar a explosão de longe.
Rosa não falou nada. Subiu pra casa. Vó Lurdes pediu pra Davi a ajudar a levantar e ele viu, naquele segundo, que as mãos dela tremiam. Não de medo. De algo que parecia esperança.
—Você já sabia? — perguntou Davi.
—Sabia que ia chegar. Não sabia quando. — Vó o abraçou contra o peito, cheirando a café e a roupa de secador. —Quem tem talento tem pressa. Quem ama tem paciência. Você tem as duas coisas misturadas, meu neto. Isso é raro.
Davi desceu pra laje sozinho no final da tarde. O envelope estava na bolsa, e ele não o abriu. Sentou na soleira da porta da cozinha — o degrau onde sua avó se sentava pra contar histórias — e ficou olhando pra rua que descia, a vida acontecendo como se nada tivesse mudado.
Mas tudo tinha mudado.
Seis meses longe era seis meses deixando a mãe com medo. Era seis meses saindo do Sabor da Vó quando a Vó talvez não tivesse seis meses. Era seis meses longe de Júlia, que subia a escadaria toda quinta à noite fingindo que vinha visitar a Vó mas que olhava pra ele com aquele olhar que ele nunca teve coragem de nomear.
A noite caiu. As luzes da cidade piscaram lá embaixo. E Davi permaneceu ali, sentado na soleira, com as mãos penduradas nos joelhos, esperando que alguém lhe dissesse se dizer sim era traição ou era coragem.
