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O Sabor do Morro — Capítulo 4: A noite em que ele quase falou

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Na laje do Cantagalo, Davi e Júlia quase se tocam. Dez anos de silêncio pesam na palma da mão dele. Uma promessa sussurrada muda tudo. Amanhã ele liga para Matteo.

O Sabor do Morro — Capítulo 4: A noite em que ele quase falou — cena da novela


A noite caiu morna no Cantagalo. Davi subiu à laje sozinho, deixando a voz de Dona Rosa ecoar lá embaixo — ela pedia ao filho que comesse mais, que dormisse cedo, que pensasse bem antes de qualquer decisão. Ele conhecia esse tom. Era o tom de quem tem medo e disfarça em cuidado.

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O céu estava aceso de estrelas. As luzes amarelas da cidade desciam em cascata até o mar, que respirava invisível no escuro. Davi encostou os cotovelos no parapeito de concreto áspero, aquele mesmo parapeito onde aos 12 anos aprendera a chorar em silêncio, onde aos 16 se jurara que nunca sairia dali, onde aos 25 percebeu que talvez tivesse que sair.

O silêncio que ela entendia

Júlia apareceu sem aviso, como sempre aparecia nos momentos que importavam. Subiu a escada da laje trazendo dois copos de suco de maracujá — o suco que Vó Lurdes fazia com açúcar queimado e um toque de cachaça velha. Maria Clara dormia no colo de Sueli lá embaixo, a avó dela balançando no banquinho de plástico, aquele que rangeu por vinte anos.

Júlia não perguntou nada. Apenas encostou ao lado dele, também nos cotovelos, também olhando pra frente. O vento trazia o cheiro de dendê cozido, de alho e cebola queimada, de tudo que era casa.

Dez anos, pensou Davi. Dez anos olhando aquele perfil dela — o nariz fino, a boca que sorriu pra ele a primeira vez no quinto ano da escola municipal, quando ela desenhou um coração na sua folha de matemática sem que ninguém visse. Dez anos guardando palavras que pesavam como pedra.

—Você vai? — perguntou ela.

—Não sei.

—Sim, você sabe.

Davi respirou fundo. O ar quente do Rio, aquele que entra nos pulmões e não sai mais. Ele tinha vinte e oito anos. Tinha as mãos de um chef que aprendera no fogão da avó. Tinha uma proposta de um homem que viajava o mundo inteiro e escolheu ele. E tinha medo. Muito medo.

—A Dona Rosa vai ficar… — começou Júlia.

—Abandonada.

—Não é abandono ficar melhor de si mesmo.

Ela virou pra ele. Os olhos dela eram pretos como o céu daquela noite, e Davi sentiu que se mergulhasse ali dentro, não voltava mais. Então não mergulhou. Apenas olhou pro horizonte, pra longe.

A mão que quase falou

Júlia estendeu a mão e deixou no parapeito, a palma aberta, como quem oferece uma chance. Davi viu aquela mão — pequena, de professora, com unhas curtas porque Maria Clara as roía do lado, com uma cicatriz fina no dedo mindinho de quando caiu da bicicleta aos sete anos, quando ele mesmo a levou pro Pronto Socorro.

Ele pegou aquela mão.

Não foi um aperto. Foi um repouso. A mão dela quente na dele, que tremia um pouco — ele estava tremendo e não sabia desde quando. Ela não comentou. Júlia tinha a graça de não comentar o óbvio. De deixar as coisas pesadas serem pesadas sem tentar levantá-las sozinha.

—Você é o melhor chef que eu conheço — disse ela baixo.

—Você não conhece mais ninguém.

—Conheço Matteo.

—Matteo é um deus.

—Matteo é um homem que tem medo de estar sozinho na cozinha. Você não. Você cozinha pra que as pessoas se sintam em casa. Isso não aprende em lugar nenhum.

Davi soltou a mão dela. Não porque quisesse. Porque se não soltasse naquele exato segundo, ia falar tudo — dez anos de silêncio, de acordar pensando nela, de temperar cada prato como se fosse pra boca dela, de amar a filha dela como se fosse seu. E amar assim, falar assim, era pedir que ela o acompanhasse pra SP. Era transformar uma mão no parapeito numa promessa que ele não sabia se conseguia cumprir.

—Eu vou voltar — disse ele.

Eu prometo.

Júlia não respondeu nada. Apenas pegou os copos vazios e desceu a laje. Davi ouviu os pés dela nas escadas de madeira — passo miúdo, aquele que ela dava quando era criança e tinha medo de acordar os gatos da vizinha.

A decisão no silêncio

Ele ficou sozinho. O mar respirava distante. A cidade piscava. E Davi Oliveira, filho de Dona Rosa, neto de Vó Lurdes, tio de Maria Clara, vizinho de Júlia Souza, sentiu o peso de tudo que era e tudo que poderia ser.

Desceu da laje quando o frio começou a picar. Encontrou a mãe na cozinha, enfiada no armário, reorganizando panelas que já estavam organizadas. Era o que Rosa fazia quando tinha medo — mexia em coisas que não precisavam ser mexidas.

—Mãe.

Ela saiu do armário com uma frigideira na mão, aquela que tinha um amassado velho.

—Sim, filho?

Davi respirou fundo.

—Vou ligar pro Matteo de manhã e digo que sim. O voo é segunda.

Dona Rosa abaixou a frigideira. Seus olhos ficaram marejados, mas ela não deixou cair nenhuma lágrima — tinha orgulho demais pra isso, ou medo demais. Talvez fossem a mesma coisa.

—Vó sabe? — perguntou Rosa.

—Vó já sabia.

Rosa encostou na pia antiga, aquela que refletira o terno de Matteo três dias atrás. A vida tinha virado rápido demais. Ou talvez tivesse sempre sido assim, e ela só agora enxergava.

—Então está bem — disse, mas sua voz dizia tudo que as palavras não conseguiam carregar.

Davi abraçou a mãe. Ela cheirava a sabão de roupa e café coado. Cheirava a tudo que era antes, a tudo que ele estava deixando, a tudo que — ele prometi a si mesmo naquele momento — ele traria de volta transformado, melhor, mais digno de herdar aquele fogão que cozinhava há cinquenta anos.

Na manhã de sexta, quando o sol subiu quente no Cantagalo, Davi ligou para Matteo. Apenas disse:

—Eu vou.

Do outro lado da linha, Matteo riu — aquele riso que vinha de quem finalmente encontrou o que procurava.

Ninguém sabia ainda que no domingo haveria um almoço de despedida, que Vó Lurdes ia sussurrar um segredo na cozinha, que Maria Clara ia entregar um desenho com lágrimas, que Júlia ia abraçar Davi no aeroporto e sussurrar algo que ele carregaria como talismã.

Ninguém sabia que aquele voo de segunda era apenas o começo de uma volta que demoraria meses, mas que traria tudo de volta — o filho, a receita, o amor, e a prova de que sair de casa não era traição. Era coragem.