A mesa era comprida demais para caber toda na laje, então dobraram a de brinquedo da Maria Clara e encostaram na parede. Feijoada fumegava numa panela de barro que Vó Lurdes carregava com as duas mãos, o mesmo peso de trinta anos, como se as articulações tivessem feito um pacto silencioso com o tempo. Domingo. A vizinhança inteira — Marcão com a esposa, D. Sueli, o padeiro de baixo, a moça do mercadinho, três ou quatro crianças que comiam em pé. Ninguém falava muito. Havia algo de funeral no ar, apesar do sol.
Davi estava de mochila já feita dentro de casa, apoiada no sofá como se fosse um hóspede. O voo saia às cinco da tarde. Matteo mandara um carro — um carro de verdade, com vidro fumê — que chegaria em três horas. Faltava almoço, faltava despedida, faltava coragem.
A panela que não fala
Vó Lurdes serviu feijão nos pratos com um gesto que Davi conhecia desde criança — sempre sobrando um pouco, sempre morno, sempre certo. Ela se sentou ao lado dele, não à cabeceira. Deliberadamente perto.
— Você não vai provar igual tem que provar — disse ela, olhando pra frente, pra ninguém em particular.
Davi enfiou a colher. O gosto era o mesmo, a bolonhesa que Matteo pagaria caro pra copiar, aquele toque de dendê que ninguém nunca descobria porque ninguém nunca perguntava direito. Ele mastigou devagar.
— Vó, eu…
— Não fala agora. Come.
Ela não comeu. Ficou ali, as mãos descansadas no colo, observando os vizinhos rirem de uma piada que Marcão contava. O silêncio dela pesava mais que qualquer palavra. Davi sentiu o peito apertar, aquela coisa de ter dez anos de novo, estar certo de que estava fazendo errado e não conseguir parar.
O desenho que virou segredo
Maria Clara apareceu da cozinha com um papel amassado na mão. Cinco anos, camiseta cor-de-rosa, sobrancelha franzida de concentração. Ela subiu no colo do tio sem pedir permissão, como fazem as crianças que sabem que são amadas sem ter que provar.
— Desenhei pra você levar — sussurrou.
Era um prato. Dentro do prato, um coração. As cores saíam do contorno porque Maria Clara ainda não tinha aprendido a respeitar linhas, e isso tornava a coisa mais verdadeira de alguma forma. Davi olhou pra filha de Júlia — aquele rosto que tinha a boca da mãe e os olhos de alguém que ainda acreditava em tudo — e sentiu o choro queimar os olhos.
— Tio, você não vai esquecer da gente, né? — perguntou Maria Clara.
Ele não respondeu. Dobrou o desenho com cuidado, colocou dentro do bolso da jaqueta, perto do coração — porque é assim que a gente guarda as coisas que duram para sempre.
Júlia estava sentada do outro lado da mesa, mexendo no feijão sem comer, fingindo que não via. Davi sabia que ela via tudo.
A recusa que é um adeus
Quando começaram a levantar os pratos, Vó Lurdes chamou Davi pra cozinha. Só ele. A porta da laje fechou com aquele baque que ecoa no peito.
A cozinha era pequena, quente, cheirava a alho e alecrim. Ela se virou pra ele com as mãos apoiadas no fogão — poucas vezes Davi a vira tão pequena.
— Você quer que eu fale a receita, né — disse ela. Não era pergunta.
— Vó…
— Não quero. Você leva o gosto dentro de você, e pronto. O resto é pra quem fica.
Uma frase que era tanto um presente quanto uma ferida. Davi entendeu, naquele instante, que sua avó estava lhe dando permissão pra partir. E que isso custava tudo a ela.
— Vó, você não vai no aeroporto? — perguntou, sabendo já a resposta.
Ela meneou a cabeça devagar.
— Eu não dou conta, filho. Tô te esperando aqui na cozinha. — Os olhos dela brilhavam, mas não caíram lágrimas. Havia uma dignidade feroz nisso. — Quando você voltar, a gente cozinha junto outra vez.
Davi abraçou a avó e ela o abraçou de volta, os dois em silêncio, compartilhando o medo de que essa fosse uma mentira bem contada.
Santos Dumont ao entardecer
O carro de vidro fumê descia a Avenida Rio Branco quando Davi viu o mar entre os prédios — aquele vislumbre rápido de azul que Rio dá de presente a quem sabe olhar. Marcão ia com ele. Não falava, só segurava a mala. Homem de poucas palavras, mas naquele dia estava ainda mais quieto que de costume. No saguão do aeroporto, ele apertou a mão de Davi — aquela mão que tinha carregado sacos de arroz, consertado torneiras, sustenido o bairro inteiro com gestos — e disse só:
— Volta logo, muleque.
Júlia chegou cinco minutos depois, ofegante, como se tivesse corrido. Ela sempre chegava no último minuto, sempre com aquela urgência de estar ali. Davi a viu vindo e sentiu os dez anos de silêncio pesarem ao mesmo tempo.
Ela abraçou ele forte, rápido, como quem quer marcar a pele com o corpo. Depois sussurrou no ouvido dele, tão baixo que Marcão não ouviu:
— Eu te espero, no tempo certo.
Davi fechou os olhos. Guardou a frase junto com o desenho, junto com o gosto da feijoada, junto com cada coisa que estava deixando para trás.
No portão de embarque, ele se virou uma última vez. Júlia acenava com a mão aberta, o sorriso aquele que tinha aprendido a usar pra esconder que estava partindo o coração. Davi levantou a mão, mas não conseguiu sorrir de volta.
O avião saiu ao pôr do sol. Rio ficou pequeno lá embaixo, vermelho e ouro, a laje do Cantagalo invisível entre milhões de outras, a cozinha de Vó Lurdes ainda quente, a mesa de domingo ainda suja de feijão. Quando o avião virou pro sul, rumo a São Paulo, Davi tirou o desenho da mochila — o pratinho com o coração — e ficou olhando até adormecer.
Matteo esperava ele no desembarque com um sorriso que era quase paternal. Abriu os braços como quem abre uma porta pra casa.
