O meio-dia caía sobre a Doces da Dalva como um peso silencioso. Bolos coloridos descansavam intactos sob as redomas, e cadeiras viradas sobre as mesas marcavam o espaço que antes fervilhava de vozes. A campainha do balcão pendia imóvel, sem um toque sequer.
Dalva passou o pano pela terceira vez no balcão de mármore. O cheiro de açúcar queimado ainda pairava, mas nenhum cliente empurrava a porta. Tainá, encostada no canto, segurava o celular com os dedos nervosos, gravando o vazio sem saber o que fazer com aquela imagem.
O balcão que ninguém toca
A luz filtrava fraca pela cortina florida. Dalva parou de limpar quando o telefone tocou, o som cortante no silêncio. Ela atendeu com a voz baixa, já sabendo que a notícia não seria boa.
— A encomenda do casamento? Cancelada? — repetiu ela, os dedos apertando o fone. Do outro lado, a voz da cliente hesitou, mencionando fofocas que corriam pelo bairro. Dalva desligou devagar, o aparelho ainda quente na mão.
Doze anos de carinho viraram piada numa manhã só.
Doze anos de carinho viraram piada numa manhã só.
A encomenda que escorrega
Tainá aproximou-se devagar, o celular ainda na mão. Ela filmava o balcão vazio sem entender o tamanho da queda. Dalva virou o rosto para a filha, o olhar cansado.
— Desliga isso, filha. Não tem mais nada pra mostrar aqui.
Tainá baixou o aparelho, mas não guardou. O silêncio entre elas pesava mais que qualquer palavra. Dalva olhou para a rua através do vidro, vendo vizinhos passarem rápido, evitando o olhar.
O vídeo que chega tarde
Seu Bento entrou pela porta lateral, trazendo o jornal dobrado. Ele não disse nada, apenas deixou o jornal sobre o balcão e saiu. Dalva abriu a primeira página e viu o nome da confeitaria riscado por comentários anônimos. Tainá, ao lado, abriu o celular de novo e encontrou o vídeo que não devia ver.
Vanessa aparecia sorrindo em frente à vitrine branca da Maison Coutinho, brindando com taças enquanto comentava a queda da concorrente. O áudio ecoava baixo na cozinha vazia.
O cheiro de bolo quente ainda subia do forno desligado. Dalva guardou o jornal no bolso, o papel amassado contra os dedos. Tainá apagou o vídeo sem dizer nada, mas o brilho da tela ficou preso no ar entre elas.
