A luz do lustre balançava sobre a pia de mármore, refletindo no aço das facas alinhadas. O cheiro de café requentado misturava-se ao doce veneno que Letícia despejava, gota a gota, na taça de cristal que Antônio tanto apreciava. Do lado de fora, a noite caía sobre São Conrado como um véu pesado.
Júnior empurrou a porta da cozinha devagar. O irmão mais novo carregava ainda nos bolsos os documentos que entregara a Maria Flor horas antes. O silêncio da casa parecia saber de tudo.
O lustre que revelou o frio
Letícia não se virou. Seus dedos continuavam firmes no frasco pequeno. A taça já estava cheia até a metade, o líquido escuro refletindo o rosto dela sem emoção.
— Você não devia estar aqui — disse ela, voz baixa.
Júnior parou a poucos passos. A aliança no dedo dele apertava a pele.
— Pai quer falar com você. Ele viu o que aconteceu na sala de reuniões.
A taça que não era para ele
Antônio surgiu no corredor, passos lentos, a mão no peito. O mal-estar da tarde ainda o acompanhava. Ele parou na entrada da cozinha e viu a taça sobre a bancada.
— Deixe isso, Letícia. Não é hora de servir nada.
Letícia ergueu o olhar. O ódio brilhou por um segundo antes de ser engolido pelo sorriso.
— Ninguém vai tirar essa herança de mim… nem mesmo você, pai.
Ninguém vai tirar essa herança de mim… nem mesmo você, pai.
Júnior deu um passo à frente. A taça escorregou um centímetro na bancada, o cristal rangendo contra o mármore.
O olhar que não mentia mais
Antônio segurou a beirada da porta. O rosto dele empalideceu de repente. Ele olhou para a taça, depois para a filha, e entendeu o que o silêncio da cozinha estava dizendo.
— Você já fez o suficiente — murmurou. — Deixe a garota em paz.
Letícia não respondeu. O silêncio pesado da mansão pareceu engrossar ao redor deles.
Júnior segurou o braço do pai. A taça ficou ali, imóvel, esperando.
O veneno que escolheu o dono
Antônio levou a mão à boca. O gosto amargo que ele jurava sentir já subia pela garganta. Letícia observava tudo sem mover um músculo.
O lustre acima deles oscilou uma última vez. A taça de cristal refletiu a luz como um olho que não piscava.
Júnior puxou o pai para fora da cozinha. A porta bateu devagar atrás deles, deixando Letícia sozinha com o que restava da noite.
