A sala de reuniões da Albuquerque & Cia exalava o cheiro acre de café requentado misturado ao perfume caro de Letícia, que nunca entrava ali sem deixar rastro. A luz do entardecer batia no vidro fosco da porta, criando sombras longas sobre a mesa de mogno. Júnior apertava os documentos contra o peito como se ainda pudesse voltar atrás.
Maria Flor parou à entrada, o envelope do DNA queimando no bolso da saia. Ela já sabia que a verdade pesava mais que qualquer contrato. O ar-condicionado zumbia baixo, mas o silêncio entre eles era mais alto.
O papel que entregou o irmão
Júnior empurrou a pasta por cima da mesa. Seus dedos tremeram ao soltar o fecho. Maria Flor pegou o maço de páginas sem olhar para ele, sentindo o peso daquilo que não estava escrito ali.
— Isso prova que você nunca foi ladra, murmurou ele. O olhar dele demorou na curva do queixo dela, na mesma curva que Antônio tinha.
Ela já sabia. Ainda assim, dobrou o primeiro documento devagar, como quem desembrulha uma ferida.
A sombra atrás do vidro
Do corredor, Letícia encostava a testa no vidro. O batom vermelho marcava o reflexo. Ela via o irmão inclinar-se para frente, via a empregada erguer o queixo. O ódio subiu quente pela garganta dela.
Júnior tocou a mão de Maria Flor por cima dos papéis. Um toque breve, quase um pedido de perdão. Letícia mordeu o interior da bochecha até sentir gosto de sangue.
A frase que não se engole
— Eu não aguento mais ser cúmplice daquilo que fizeram com você — disse Júnior. A voz saiu rouca, como se as palavras tivessem arranhado a garganta no caminho.
Eu não agunto mais ser cúmplice daquilo que fizeram com você.
Maria Flor recuou um passo. O envelope no bolso roçou a coxa. Do outro lado do vidro, Letícia fechou os olhos e o punho se fechou ao redor da alça da bolsa.
O mal-estar que desceu as escadas
Antônio apareceu no fim do corredor, a mão no peito. O mal-estar da noite anterior ainda não passava. Ele viu a filha escondida, viu o filho perto demais da empregada. Não disse nada. Apenas virou as costas.
Letícia desceu os degraus da empresa sozinha. A taça de cristal da mansão brilhava na memória dela, quebrada em mil pedaços. Na cozinha, mais tarde, a luz do lustre cairia sobre a bancada enquanto ela preparava o que não deveria preparar. Júnior estacionou o carro em frente à favela e ficou olhando para a janela de Maria Flor acesa, sem coragem de subir.
