O cheiro de antisséptico misturava-se ao leve aroma de café frio deixado na bandeja. A luz fraca da manhã entrava pelo vidro sujo da janela do hospital, pintando listras sobre o lençol branco. Uma mancha vermelha escura se espalhava devagar, como se o próprio corpo de Isabela recusasse ficar quieto.
Ela abriu os olhos devagar. A dor latejava no peito e na perna esquerda. O acidente voltava em flashes: faróis, o grito de Rafael, o carro desgovernado. Ao lado da cama, uma figura se mexia.
O sangue que não some
Isabela tentou sentar. A prima segurava seu celular, os dedos tremendo sobre a tela. O olhar dela desviou rápido demais quando notou que Isabela acordara. O segredo estava ali, no jeito como ela guardava o aparelho no bolso.
— Você não devia mexer nisso — disse Isabela, a voz rouca.
A prima deu um passo atrás. O silêncio entre elas pesava mais que o gotejar do soro.
A madrasta de sorriso falso
Júlia entrou minutos depois, perfume caro invadindo o quarto. Trazia flores brancas, mas seus olhos varreram a máquina de sinais vitais como quem calcula lucros. Isabela sentiu o estômago revirar.
— Vim ver como está minha enteada — disse Júlia, voz doce demais. Colocou o vaso sobre a mesa e ajustou o lençol, escondendo a mancha vermelha com o movimento.
Isabela observou o anel de Júlia brilhar sob a luz. Todo aquele cuidado era mentira.
Você me vendeu pra eles.
As palavras saíram secas, cortando o ar. Júlia piscou uma vez, depois sorriu.
O segredo que escapa pela janela
Do lado de fora, um carro parou no estacionamento. Rafael desceu, falando baixo ao telefone. Ele olhou para cima, para a janela do quarto de Isabela, e guardou o celular no bolso. A testemunha do acidente tinha falado.
Isabela fechou os olhos. A dor na perna era nada perto do que sentia no peito. A prima ainda estava ali, imóvel, esperando o próximo movimento.
Do corredor vinha o som de passos apressados. Júlia ajustou o colar e saiu sem olhar para trás. O lençol branco agora carregava duas manchas: uma de sangue, outra de café derramado.
