No escritório da Montenegro Turismo, a luz do entardecer entrava pelas persianas semiabertas, pintando listras douradas sobre a mesa de mogno. Uma taça de champanhe repousava intacta ao lado de documentos espalhados. O ar cheirava a café requentado e a perfume caro demais para aquele momento.
Isabela apertou o celular no bolso do casaco, sentindo o frio do metal contra os dedos. A visita de Júlia no hospital ainda ardia como uma ferida aberta. Rafael sabia onde ela estava agora. Nada mais era seguro.
A taça que ninguém tocou
Júlia entrou primeiro, passos firmes sobre o carpete. Deixou a porta entreaberta. O advogado a seguiu, maleta na mão, olhar baixo. Isabela apareceu por último, silenciosa.
A madrasta sorriu sem calor. “Sente-se, querida. Temos negócios.” A taça continuou intocada, bolhas subindo devagar como aviso.
O advogado que escolheu
O homem de terno cinza abriu a maleta. Papéis com selos oficiais. Júlia indicou a cadeira ao lado dela. “Ele já assinou o novo acordo.”
Isabela observou o rosto do advogado. Um músculo tremeu em sua mandíbula. Ele já havia escolhido. O silêncio entre eles pesava mais que qualquer cláusula.
Palavras que não voltam
“Você nunca controlou nada aqui”, disse Júlia, voz baixa. “Seu pai sabia disso. Eu só terminei o que ele começou.” A taça escorregou um milímetro na mesa quando Isabela apoiou a mão.
Essa empresa agora é minha.
Isabela não respondeu. O dedo indicador pressionava o botão do gravador dentro do bolso. O advogado desviou o olhar para a janela.
O celular que vibra
Do corredor veio o som abafado de um celular. Rafael ligava. Isabela sentiu o pulso acelerar, mas manteve a postura. Júlia já virava as costas, certa da vitória. O advogado recolheu os papéis sem dizer adeus.
Isabela ficou sozinha com a taça ainda cheia. Do lado de fora, o mar batia contra as pedras do cais de Portovelho. Dentro do bolso, a gravação continuava rodando. Na mansão, alguém já preparava a sala para uma festa que ninguém havia anunciado.
