A chuva caía sem piedade sobre Copacabana, tamborilando no vidro embaçado do laboratório discreto. Maria Flor apertava o envelope contra o peito, o coração batendo no mesmo ritmo dos pingos. O cheiro de desinfetante misturava-se ao do asfalto molhado que invadia pelas frestas.
Victor observava em silêncio do outro lado da sala, os olhos fixos no papel que ela ainda não abrira. Lá fora, a noite engolia os prédios baixos, enquanto na mansão dos Albuquerque, bem distante, Letícia acordava suando frio.
O envelope que pesava mais que o sangue
Maria Flor rasgou o papel com dedos trêmulos. As letras pretas saltaram diante dela, irrefutáveis. Victor deu um passo à frente, mas parou quando viu o rosto dela empalidecer.
Você é filha dele… e eles esconderam isso de você a vida inteira.
Você é filha dele… e eles esconderam isso de você a vida inteira.
Ela dobrou o laudo devagar, guardando-o no bolso da saia úmida. O silêncio entre eles carregava o peso de décadas.
Pesadelos na mansão de vidro
Letícia caminhava pelos corredores escuros da casa grande, o eco dos próprios passos a seguindo. A taça de cristal na mesa de centro refletia sua imagem distorcida. Ela parou, apertando as têmporas, como se pudesse apagar o que o passado teimava em devolver.
A verdade se aproximava, e ela sentia no ar rarefeito da sala.
Victor e o silêncio que não basta
No laboratório, Victor finalmente falou, a voz baixa. “O que vai fazer agora?” Maria Flor ergueu o olhar, os olhos secos apesar da tempestade lá fora. Ela não respondeu. Apenas caminhou até a porta, deixando o advogado com a dúvida pairando.
O envelope amassado no bolso marcava a pele dela como uma cicatriz nova.
Antônio sentiu um aperto súbito no peito ao entrar na sala de estar, sem saber por quê. A mansão pareceu mais fria de repente, como se o segredo tivesse ganhado voz.
