O escritório de Rafael desaba sob o peso de assinados não cumpridos. A mesa de mogno — aquela que ele beijava ao entardecer, jurando ser invencível — agora é apenas um pedaço de madeira cara em um espaço que deixou de ser dele. Os papéis estão espalhados como confete de um carnaval que ninguém pediu. Nenhum deles traz boas notícias.
Larissa observa tudo pela janela de vidro fumê do corredor. Seu reflexo é quase invisível — um fantasma que gosta de sombras. Ela não sorri. Ainda não. O prazer virá depois, quando estiver sozinha no quarto, quando a culpa tiver dormido.
O império que desaba
Rafael atende o telefone pela quinta vez em dez minutos. A voz dele é um sussurro que tenta ser trovão.
— Sim, eu sei… Sim, entendo as condições… — Ele segura a testa com a mão livre, como se pudesse impedir que o crânio exploda por dentro.
Larissa entra sem bater. O silêncio que ela traz é mais barulhento que qualquer grito.
Rafael desliga o telefone. Seus olhos — aqueles olhos que ela uma vez acreditou que continham universos inteiros — agora contêm apenas medo.
— O que você fez? — pergunta ele, mas já conhece a resposta. A conhece há dias.
Larissa não responde com palavras. Ela caminha até a poltrona de couro e senta-se como quem já comprou o lugar. Um gesto de posse que o destrói mais que qualquer confissão.
— Seus sócios descobriram sobre o desvio de fundos de três anos atrás — ela diz, finalmente. A voz é morna, como quem lê uma notícia do jornal. — Aquele dinheiro que você nunca confessou. Que você usou para pagar dívidas de jogo.
Rafael empalidece. Seu queixo começa a tremer.
— Quem te contou isso?
— Você. — Ela se levanta. Seus dedos percorrem os papéis da mesa dele, lendo-os com os olhos. — Você falou dormindo. Muitas noites. Eu apenas… anotei.
Ele tenta se aproximar, mas algo na postura de Larissa o congela a três metros de distância.
— Larissa, por favor… eu posso explicar…
Explicar o quê? Que você me traiu? Que você roubou? Ou que você é um homem tão pequeno que cabe inteiro dentro da mentira?
As palavras saem como lâminas. Rafael recua como se tivesse levado um soco.
O gosto amargo da vitória
Mais tarde, no quarto que ainda é tecido com memórias dele, Larissa se olha no espelho. Seu rosto está molhado. Ela não sabe se é suor ou lágrimas — a diferença deixou de existir há muito tempo.
Ela aperta um vidro de perfume contra o peito. Era presente dele. Presente de um homem que já não existe mais, ou talvez nunca tenha existido. Ela abre a janela e o joga para fora. Ouve o barulho do vidro quebrando no chão — som de conclusão.
Seu telefone vibra. Uma mensagem de um número que ela conhece, mas não salvou no contato:
Vi você ontem no restaurante. Você é ainda mais linda quando está sozinha. Almoçamos em breve?
Larissa lê a mensagem três vezes. Conhece o dono do número. Rafael conhece também — e é por isso que ela o pediu para escrever. Antônio. O sócio mais jovem de Rafael. O homem que Rafael mais inveja. O homem que tem tudo que Rafael sempre quis ser.
Ela escreve a resposta com um sorriso que assusta até a ela mesma:
Com prazer. Escolha um lugar bonito.
A visita que ninguém esperava
Rafael bate na porta do quarto dela à meia-noite. Seu rosto é uma máscara de desespero e fúria misturados.
— Você está vendo Antônio? — pergunta, sem preliminares. Sem dignidade.
Larissa não fecha a porta. Deixa ele entrar, porque o sofrimento dele é o único carinho que ela consegue aceitar agora.
— Não é da sua conta.
— Não é da minha… — Ele solta uma risada que é quase um grito. — Larissa, tudo que estou perdendo é porque você quer me destruir. Você está dormindo com ele?
— Não. — Ela senta na cama. — Ainda não.
O silêncio que segue é tão denso que parece ter peso. Rafael sente ele sobre os ombros, sobre o peito, sufocando.
— Eu te amava — ele sussurra.
— Não. — Larissa o olha nos olhos. Seus olhos estão vazios de tudo que não seja verdade. — Você amava a ideia de me ter. A diferença é que eu descobri quem você era de verdade.
Rafael estende a mão. Larissa não se move. Ele baixa o braço como quem acabou de ser rejeitado pelo próprio corpo.
— E agora? — ele pergunta. — Quando você tiver me destruído completamente, você vai parar?
Larissa não responde. A resposta é que ela também não sabe.
O bilhete que muda tudo
Na manhã seguinte, quando Larissa desce para o café, encontra um envelope sobre a mesa da cozinha. Seu nome está escrito em letra que ela reconhece — não é de Rafael.
Dentro, um bilhete de uma linha:
Sua mãe chamou. Diz que é urgente.
O coração de Larissa para. Ela não tem contato com a mãe há sete anos. Desde aquele verão em que tudo começou a desabar. Desde aquela noite em que ela descobriu um segredo que Rafael jurou que levaria para o túmulo.
Seu telefone toca. Número desconhecido.
Uma voz que ela pensava ter esquecido:
— Filha. Eu preciso te contar a verdade. Antes que seja tarde demais.
Larissa segura o telefone com as duas mãos, como se ele pudesse desaparecer. Lá fora, a chuva começa a cair. Uma gota bate na janela e escorrega para baixo, como uma lágrima que não consegue ficar parada.
