A chuva bate contra o vidro da cobertura de Larissa como se quisesse entrar. Ela está de pé, descalça, observando a cidade se dissolver na neblina. Seu celular vibra. Uma mensagem de Rafael: “Preciso falar com você.” Ela não responde. Não precisa. Ele já perdeu o direito de exigir qualquer coisa dela.
Mas há algo diferente no ar hoje. Algo que queima mais do que raiva.
O encontro que não deveria acontecer
Lucas chega quinze minutos atrasado. Ele sempre chega atrasado — é uma característica que Larissa deveria odiar, mas que, inexplicavelmente, a faz sorrir. Primo de Rafael, advogado brilhante, sempre esteve à margem do círculo podre da família. Sempre a olhou diferente.
O café está frio quando ele senta à sua frente, no pequeno bistrô longe do Leblon. Ele pede outro, não para ele, mas para ela. “Você tem os olhos vermelhos”, diz sem rodeios. Larissa quer negar, mas Lucas já conhece a verdade há semanas. Desde aquele dia no escritório, quando ela entrou procurando documentos sobre as finanças de Rafael e encontrou Lucas em vez disso.
“Ele não merecia você”, continua Lucas, e há algo na voz dele que não é piedade. É reconhecimento. É fome.
Larissa sente o calor subir pelo pescoço. Ela deveria sair. Deveria ser sensata. Deveria lembrar que Lucas é sangue de Rafael, que tudo isso é perigoso demais, que a vingança não deveria ter rosto ou mãos que a tocassem como ele está tocando agora — o dedo dele roçando o dela sobre a xícara.
“Você também não merecia estar perto dele”, ela responde.
O silêncio que se segue pesa como chumbo.
O beijo que muda as regras
Três dias depois, Larissa está no apartamento de Lucas. Vidraças do andar 28, vista para a Baía de Guanabara, e ela não vê nada disso. Ela vê apenas a boca dele se aproximando, vê o momento em que ele hesita — como se pedisse permissão — e então a beija como se estivesse salvando a vida dela.
Ela o beija de volta como se estivesse matando alguém.
Depois, deitada contra o peito dele, Larissa sente algo que não sentia há meses: alívio. Não é amor — ela sabe disso. Mas é real. É quente. É seu.
“Ele vai descobrir”, sussurra Lucas contra seu cabelo.
“Deixa descobrir”, ela responde.
Mas sabe que está mentindo. Não quer que Rafael descubra porque está arrependida. Quer que descubra porque sabe exatamente como ele vai reagir. E essa reação é parte do plano que ela nunca admitiu em voz alta.
O confronto inevitável
Rafael aparece no escritório de Lucas um domingo à noite, quando ninguém deveria estar lá. Larissa sabe que ele virá — ela deixou propositalmente uma foto deles dois no computador de um amigo em comum, sabendo que as fofocas viajam mais rápido que qualquer outra coisa nesta cidade.
“Você está me traindo com ele?”, grita Rafael, e há desespero em cada sílaba. Não ciúmes — desespero. Porque Rafael ainda a quer. Ou melhor: ainda quer tê-la. Há diferença.
“Traição é quando você promete amor e entrega humilhação. Isso aqui é apenas justiça.”
Larissa diz isso com a voz tão calma que Rafael recua como se tivesse levado um soco. Lucas está ao lado dela — não a tocando, não a protegendo, apenas presente — e isso é mais devastador para Rafael do que qualquer abraço poderia ser.
“Você não sabe em que está se metendo”, diz Rafael, e há algo estranho em seu tom agora. Não é ameaça. É aviso.
Larissa sente o primeiro arrepio de dúvida atravessar sua espinha.
O segredo que queima
Naquela noite, Lucas a leva para cama e ela o deixa. Mas quando ele dorme, Larissa fica acordada, observando o teto, e uma pergunta cresce dentro dela como um tumor: por que Rafael disse aquilo daquele jeito?
Ela pega o celular e começa a pesquisar. Nomes, datas, conexões que ela deveria ter visto antes. E então encontra: um documento antigo, uma transferência bancária de vinte anos atrás, assinada pelo pai de Rafael e pelo pai de Larissa.
Seu coração para.
O dinheiro que fundou a empresa de Rafael — o dinheiro que fez dele quem ele é — não veio da família dele. Veio da sua. Seu pai investiu tudo, e Rafael cresceu sobre as ruínas dessa aliança que ninguém lhe contou.
Larissa sai da cama sem acordar Lucas. Fica na varanda, descalça novamente, e a cidade lá embaixo parece menor agora. Mais frágil. Ela está vingando-se de um homem que talvez tenha sido vítima do mesmo segredo que a destruiu. E Lucas — Lucas sabia disso?
Seu telefone vibra. Uma mensagem de um número desconhecido: “Você quer saber a verdade sobre seu pai? Ligue para este número.”
Larissa aperta o telefone tão forte que quase o quebra.
