A chuva batia contra as janelas do apartamento de Larissa como se quisesse entrar. Ela estava de pé, diante do espelho do quarto, observando a mulher que a traição havia criado — mais afiada, mais fria, mais perigosa. A maquiagem estava perfeita. O vestido negro, que Rafael sempre odiou porque dizia que era muito ousado, caía sobre seu corpo como uma promessa de guerra.
No sofá, Marina — sua aliada inesperada, aquela colega de trabalho de Rafael que guardava seus próprios rancores — verificava o celular. Um sorriso de satisfação queimava seus lábios. Tudo estava pronto.
O homem que não era Rafael
O bar Grão de Ouro era o lugar onde os executivos de São Paulo fingiam ser quem não eram. Larissa entrou sozinha. Não precisava de companhia — sua presença era suficiente. Os olhares viraram para ela como flores para o sol, e ela fingiu não notar nenhum deles.
Até que o viu. Lucas Dellano. Presidente do grupo Dellano, rival de longa data da família de Rafael. Cabelos grisalhos nas têmporas, olhos que liam o mundo como um livro aberto, mãos que seguravam um copo de uísque com a segurança de quem nunca pediu permissão para nada.
Ela caminhou na direção do bar. Nem olhou para ele. Mas sentiu quando ele a viu.
Ele já sabia quem ela era.
Lucas se aproximou com a naturalidade de quem não conhece rejeição. Larissa deixou que ele falasse primeiro — homens ricos adoram acreditar que conquistam. Ele ofereceu um drinque. Ela aceitou com um sorriso que continha todo o fogo que Rafael havia desperdiçado. A conversa fluiu como veneno em mel: inteligente, perigosa, letal.
“Existem mulheres que nascem para serem possuídas. Você, minha cara, nasceu para possuir.”
Lucas sussurrou isso em seu ouvido, perto demais, e Larissa sentiu a adrenalina de estar viva de novo. Não era amor. Era algo muito mais primitivo e muito mais honesto.
O desespero de um homem que perde tudo
Rafael recebeu a notícia por um colega de trabalho que a sussurrou em seu ouvido durante uma reunião. Larissa estava no Grão de Ouro. Com Lucas Dellano. Aos beijos.
Ele saiu da reunião sem explicações. Seu rosto — aquele rosto bonito que tantas vezes mentiu para ela — perdeu a cor. No carro, suas mãos tremiam no volante.
Quando chegou ao bar, eles já tinham saído. Mas Marina estava lá, sentada a uma mesa estratégica, observando tudo com a paciência de uma predadora. Quando o viu entrar em pânico, ela simplesmente levantou seu copo para ele. Um brinde silencioso à sua destruição.
Rafael ligou para Larissa. Ela não atendeu. Ligou novamente. Nada. A espera era o pior dos castigos.
A verdade que queima
Larissa estava em casa quando a mãe de Rafael a chamou. Dona Cecília Montenegro — sim, Montenegro, não Souza como Rafael fingira para seus amigos. A mãe ligou pessoalmente, sua voz tremendo de fúria contida.
“Preciso te contar algo. Sobre Rafael. Sobre a família dele.”
Meia hora depois, Larissa estava na mansão de Cecília, segurando uma xícara de café que esquecera de beber. Suas mãos estavam frias. Seu coração, em chamas.
Rafael não era filho de Adalberto Souza. Era filho de um casal de empregados que trabalhava na casa da família. Adalberto havia registrado Rafael como seu, criando-o como herdeiro legítimo, enquanto os verdadeiros pais trabalhavam na cozinha. Um segredo guardado por três décadas. A herança de Rafael, a empresa, o dinheiro, o status — tudo construído sobre uma mentira monumental.
Cecília sabia disso desde o início. Ela havia contado para Marina anos atrás, em um momento de fraqueza. E Marina, aquela mulher que Rafael havia humilhado quando ainda era jovem demais para reclamar, guardara essa informação como uma bomba de relojoaria.
“Por que me conta isso agora?” Larissa perguntou, sua voz tão baixa que quase não foi audível.
“Porque ele merecia,” disse Cecília. “E porque você merecia saber a verdade antes de destruí-lo.”
Larissa fechou os olhos. A vingança tinha acabado de mudar de forma.
O celular que não para de vibrar
Rafael tentava ligar novamente. Uma, duas, dez vezes. Larissa via cada chamada em seu celular e deixava o telefone vibrar contra a mesa de vidro. Cada vibração era um grito silencioso dele.
Ela estava deitada no sofá, usando uma blusa de seda que Lucas havia mandado entregue em sua casa. Uma provocação velada. Uma declaração. Rafael estava perdendo e sabia disso.
Marina enviou um vídeo. Larissa e Lucas, no Grão de Ouro, a câmera capturando cada toque de mão, cada olhar carregado. A imagem era tão real, tão convincente, que até Larissa por um momento esqueceu que era teatro. Depois lembrou. E aquela lembrança a queimou por dentro.
O que ela estava se tornando?
Rafael apareceu em sua porta naquela noite. Molhado de chuva, com os olhos avermelhados, pedindo para que ela o deixasse entrar. Larissa abriu a porta, mas não recuou. Deixou que ele ficasse de pé, encharcado, como um animal ferido.
“Quem é ele?” Rafael perguntou.
“Alguém que me vê,” respondeu Larissa.
E quando ele tentou se aproximar, ela simplesmente fechou a porta. Ouviu seu corpo bater contra a madeira. Ouviu seus soluços do outro lado. E dentro dela, junto com a satisfação da vingança, uma dor antiga começou a acordar — aquela dor que ela jurara nunca mais sentir.
O telefone vibrou novamente. Desta vez, não era Rafael. Era Lucas, enviando uma mensagem: “Amanhã à noite. Jantar privado. Apenas nós dois. Preciso de você.”
Larissa respirou fundo. A engrenagem da vingança continuava girando. Mas agora ela não sabia mais quem controlava a máquina.
