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Veneno de Amor — Capítulo 1: O primeiro olhar que queima

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Na boate mais procurada de São Paulo, dois olhares se encontram e acendem uma chama que pode queimar tudo. Isabela veio para destruir Rafael. Mas o veneno que ela planejou pode ser mais doce — e ma…

Veneno de Amor — Capítulo 1: O primeiro olhar que queima — cena da novela


A noite respira junto com a música. No Grão de Ouro, a boate mais procurada da zona sul, o ar é denso de perfume caro, álcool e promessas que ninguém cumpre. As luzes vermelhas e azuis pulsam como um coração que não sabe se bate de medo ou desejo. Isabela circula entre as mesas altas com a precisão de quem conhece cada centímetro do território — garota de balcão há três anos, conhece os nomes, os drinks preferidos, as mentiras que cada executivo conta para impressionar.

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Ela segura a taça de uísque entre os dedos com leveza perigosa. O gelo bate no vidro — toc, toc, toc — enquanto ela gira a bebida em pequenos círculos. O movimento é quase meditativo. Quase. Na verdade, Isabela está contando os segundos para meia-noite, quando a porta giratória do salão principal se abre e deixa entrar o ar frio de fora e o homem que ela veio destruir.

O copo que não escorrega

Bruno está ao seu lado, fingindo ajustar as garrafas na prateleira inferior. Seu uniforme de barman combina com o dela — camiseta preta, calça social, discrição calculada. Mas os olhos dele não saem de Isabela. Nunca saem.

“Você está estranha hoje,” ele sussurra, virando a cabeça para que ninguém veja os lábios se mexendo.

Isabela não responde. Apenas sorri. Um sorriso que não chega aos olhos — o sorriso de quem ensaiou por semanas em frente ao espelho do apartamento apertado que divide com duas amigas. O sorriso de quem sabe que esta noite é o primeiro dia de um plano que levou três anos para ser costurado.

O copo continua girando na sua mão. O gelo não escorrega. Nada nela escorrega.

A música muda. Uma batida mais lenta, mais pesada. O DJ — um rapaz com fone preto e olhar vazio — faz a transição com a precisão de quem sabe que o público quer se sentir importante e perigoso ao mesmo tempo. Nas mesas, casais se aproximam. Executivos soltam risadas falsas. Uma mulher de vestido dourado tira um cigarro da bolsa — proibido aqui, mas regras não existem quando você tem o cartão de crédito certo.

A porta que abre cedo demais

Então ela vê.

A porta giratória gira mais devagar do que o normal. Como se o tempo tivesse decidido dar a Isabela o privilégio de ver cada detalhe. Rafael Montenegro entra. Não caminha — desfila. O terno é cinza-chumbo, feito sob medida, e a camisa branca é tão impecável que dói. Ele tem o tipo de beleza que não pede permissão: queixo quadrado, cabelo escuro penteado para trás com negligência propositada, olhos que parecem conhecer segredos de outras pessoas.

Atrás dele, uma mulher loira com expressão afiada — Lara. A irmã. Isabela reconhece pelos jornais, pelas fotos da seção de sociedade que ela pesquisou obsessivamente durante meses. Lara veste-se como uma arma: preto total, saltos vermelhos sangue, um sorriso que promete destruição.

Bruno vê Isabela ver Rafael. Vê o corpo dela ficar imóvel. Vê a respiração mudar. E entende, naquele instante, que qualquer coisa que ele tenha planejado para protegê-la foi insuficiente.

Rafael e Lara ocupam uma mesa no canto, de frente para o balcão. Não é acaso. Nunca é acaso em lugares como este. O gerente da boate — um homem gordo e suado que responde por Márcio — já está ali, trazendo bebidas caras, rindo de piadas que ninguém fez.

O olhar que queima

E então Rafael levanta os olhos.

Encontra Isabela. Apenas isso: encontra. Mas é como se toda a boate desaparecesse e restasse apenas aquele ponto de contato — dois pares de olhos que não deveriam nunca estar no mesmo lugar.

Isabela sente o calor subir pelo pescoço. Raiva, ela se diz. Raiva pura. Mas há algo mais embaixo, algo que ela não previu, algo que não estava no plano: uma atração que a queima por dentro como veneno doce.

Ela não desvia o olhar. Desvia seria fraqueza. E Isabela aprendeu cedo que fraqueza é morte.

“Hoje tudo vai mudar,”

ela pensa, ainda com os olhos fixos nele.

Rafael sorri. Um sorriso pequeno, privado, como se ele e Isabela compartilhassem uma piada que o resto do mundo não entende. Ele vira para Lara, diz algo que Isabela não consegue ouvir, e a irmã ri — uma risada que soa como vidro quebrando.

Bruno coloca a mão no ombro de Isabela.

“Não faça isso,” ele sussurra. Uma súplica. Um aviso. Uma oração.

Isabela não responde. Ela apenas ajusta o avental, verifica se o uniforme está perfeito, e começa a caminhar na direção da mesa. Seus passos são lentos, calculados. Cada movimento é um passo em um tabuleiro que só ela consegue ver.

Rafael a observa se aproximar. Lara também. E há algo na expressão da irmã — uma contração dos lábios, um endurecimento dos olhos — que sugere que ela reconheceu algo. Ou alguém.

Isabela chega à mesa. A música continua pulsando. O gelo nas bebidas continua derretendo.

“O que vocês vão querer?” ela pergunta, com um sorriso profissional, impecável, vazio.

Rafael se inclina ligeiramente para trás, estudando-a como se ela fosse um quadro em um museu que ele nunca havia visto antes. “Você é nova aqui?”

Não é. Isabela trabalha aqui há três anos. Mas ele nunca havia vindo. Ou talvez tivesse vindo e ela tivesse se mantido invisível, esperando este momento exato.

“Não,” ela responde. “Mas você parece ser.”

Lara se mexe na cadeira. Há algo perigoso no ar agora, algo que vai além da flertação padrão de boate de luxo. É como se duas pessoas reconhecessem a outra como ameaça antes mesmo de saber por quê.

Rafael ri. Uma risada genuína, que transforma seu rosto por um segundo e o torna perigosamente humano. “Gosto de você. Qual é o seu nome?”

Isabela sente o peso do momento. Esta é a linha que, uma vez cruzada, não tem volta. Esta é a porta que, uma vez aberta, deixa sair coisas que não podem ser guardadas novamente.

“Isabela,” ela diz.

Rafael repete o nome em voz baixa, como se estivesse provando o sabor. Como se estivesse descobrindo que o veneno pode ser doce.

Lara se inclina para o irmão e sussurra algo no seu ouvido. Isabela vê o rosto de Rafael mudar — apenas uma fração de segundo, mas o suficiente. Ele conhecia o nome. Ou alguém lhe disse que conheceria.

Nos fundos da boate, Bruno aperta os punhos. Ele sabe, neste instante, que tudo que ele tentou impedir durante todos estes anos está prestes a acontecer. E que ele não conseguirá detê-lo.