A boate pulsava em batidas baixas, aquele tipo de som que você sente no peito antes de ouvir nos ouvidos. Isabela havia saído de trás do balcão com as mãos ainda úmidas de gelo e suco de limão, deixando Bruno com o olhar preocupado fixo em suas costas. Ela sabia que ele a seguiria com os olhos até o fim da noite — sempre fazia. Sempre protegia. Sempre a impedia de fazer o que precisava fazer.
Rafael estava no canto escuro, aquele reservado para homens que não queriam ser vistos demais. Uma taça de uísque descansava sobre a mesa de vidro fumê, intocada. Ele a observava desde que ela desceu do balcão, e agora, quando ela se aproximou, ele não disfarçou o interesse. Nenhum dos dois disfarçou.
O copo entre eles
Isabela sentou-se na poltrona de couro, deixando propositalmente uma distância que dizia tudo: posso estar perto, mas não sou sua. Rafael inclinou-se para frente, e a luz vermelha da boate cortou seu rosto em dois — metade sombra, metade desejo.
— Você é diferente das outras — disse ele, e havia algo de genuíno na voz que a fez querer gritar.
— Diferentes como? — Isabela pegou o copo de uísque da mesa e bebeu um gole. Seu gole. Um gesto de intimidade que ele interpretou como convite.
— Como se guardasse um segredo. Tipo de mulher que você deveria evitar. — Ele sorriu, aquele sorriso que provavelmente havia funcionado em cem mulheres antes dela. Isabela sentiu o veneno em suas veias esquentar.
Ela sabia exatamente quem ele era. Sabia dos nomes. Sabia das datas. Sabia da noite em que sua mãe recebeu a ligação que a deixou de joelhos na cozinha, segurando uma conta de hospital que nunca poderia pagar. Rafael havia financiado um negócio do pai de Isabela — um negócio que virou golpe. Uma cilada. Uma brincadeira de homem rico com homem pobre.
— Talvez eu seja exatamente o tipo de mulher que você merece conhecer — respondeu, e viu o brilho nos olhos dele mudar. Predador reconhecendo presa.
O jogo das máscaras
Rafael se recostou na poltrona, estudando-a como se ela fosse um quebra-cabeça que tivesse decidido resolver. A música abafava as conversas ao redor, criando uma bolha privada onde apenas eles dois existiam.
— Qual é o seu nome? — perguntou, embora Isabela soubesse que ele já havia perguntado ao bartender no balcão.
— Isabela.
— Isabela… — Ele pronunciou devagar, como se o nome tivesse sabor. — Você trabalha aqui há quanto tempo?
— Tempo suficiente para saber quem entra e quem sai. — Ela cruzou as pernas, vendo-o acompanhar o movimento. Homem previsível. Homem fácil de ler. Homem perigoso.
— E o que você sabe sobre mim? — A pergunta veio carregada, como se ele já suspeitasse que ela soubesse.
Isabela sentiu o coração bater mais forte. Este era o momento. Este era o instante em que ela poderia revelar ou esconder, atacar ou seduzir. Ela escolheu a sedução — sempre escolheria a sedução.
— Que você é alguém que as pessoas têm medo de desapontar. — Ela se inclinou, e o perfume dela — gardênia e algo mais amargo — alcançou Rafael como uma promessa. — Que você consegue o que quer porque ninguém ousaria dizer não.
Rafael a beijaria naquele momento se ela permitisse. Ela viu a vontade queimar nos olhos dele, viu a mão dele se mover em sua direção.
Mas Isabela se afastou.
A frase que muda tudo
— Você esconde algo — disse Rafael, sua voz agora mais baixa, mais séria. — Eu sinto.
Isabela piscou uma vez. Apenas uma vez. Depois sorriu, e foi o sorriso mais honesto da noite.
— Nós todos escondemos algo. A questão é se estamos dispostos a pagar o preço de deixar alguém descobrir.
Ele recostou-se na poltrona, e agora era ele quem a observava com uma mistura de fascínio e cautela. Ela havia dito a verdade, e a verdade era mais perigosa que qualquer mentira. Rafael Montenegro era um homem que entendia perigo. Ele reconhecia a si mesmo em outras pessoas.
— Qual é o seu número? — perguntou, e não era um pedido. Era uma ordem disfarçada de pergunta.
Isabela recitou os dígitos como se estivesse fazendo um feitiço. Ela viu Rafael guardar cada número na memória, e soube que ele a ligaria. Que ele a procuraria. Que ele não conseguiria resistir à tentação de descobrir o que ela escondia.
O que ninguém vê
Quando Isabela voltou ao balcão, Bruno estava lá, secando copos com um pano que ele apertava como se fosse o pescoço de alguém. Seus olhos a interrogavam.
— Não comece — disse ela, passando por ele.
— Isabela, aquele é Rafael Montenegro. Os Montenegros são —
— Eu sei quem eles são. — Ela pegou uma garrafa de vodca e começou a preparar um drink com movimentos mecânicos, precisos. As mãos não tremiam. O coração sim, mas as mãos não.
Bruno se aproximou, baixou a voz.
— Você está brincando com fogo.
— Não. Eu sou o fogo. — Isabela entregou o drink para um cliente e o olhou nos olhos. — E ele ainda nem começou a queimar.
Pela primeira vez naquela noite, ela acreditava no que dizia. Rafael Montenegro não sabia que estava sendo caçado. Não sabia que a mulher mais bonita da boate havia entrado em seu mundo com um propósito que ia além de sedução. Ele pensava que tinha controle, que tinha poder, que tinha sorte.
Na verdade, ele tinha apenas um número de telefone e a certeza de que ligaria. Que procuraria. Que caíria.
Lá no fundo da boate, Rafael guardava o número de Isabela em seu celular. Seus dedos pairavam sobre o teclado, hesitando. Algo naquela mulher o assustava — não pelo que ela havia dito, mas pelo que ele havia sentido. Uma conexão que não deveria existir. Uma familiaridade que não tinha explicação.
Ele colocou o celular no bolso e pediu outro uísque. Beberia a noite toda se fosse necessário. Mas amanhã, ele ligaria. Ele sempre ligava.
