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A Chave Dourada — Capítulo 4: O Pedro

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Tata leva o pen drive da Beatriz — cinco anos de gravações que podem derrubar um senador. Mas ao sair do prédio, descobre que não está mais sozinha. E os olhos dele, no retrovisor, dizem que a guer…

A Chave Dourada — Capítulo 4: O Pedro — cena da novela

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A Chave Dourada · Capítulo 4

O Advogado

Histórias não derrubam senadores.
Provas derrubam.

✦ ✦ ✦

A manhã de sexta amanheceu cinzenta sobre São Paulo. Daquelas manhãs que parecem estar segurando alguma coisa — sem chuva, sem sol, só uma luz suspensa que faz a cidade inteira andar mais devagar.

Tata calçou os tênis brancos gastos. Os mesmos que ela usava há anos, aqueles que já tinham virado parte do pé dela. Pegou a mochila do Pedro, a chave do carro, e foi até o portão da escola levar o filho.

Ela nunca fazia isso. Pedro tinha dezesseis anos. Ia sozinho desde os catorze. Mas dois dias atrás dois homens estranhos tinham parado o menino na esquina e feito perguntas estranhas sobre ela.

E quem é mãe sabe — quando o filho vira alvo, mãe não dorme mais.

Esperou ele entrar. Viu a mochila desaparecer no corredor da escola. Só então respirou fundo.

Tirou o celular da bolsa. Procurou um nome que estava ali há cinco anos sem nunca ter sido chamado.

Ricardo Martins.

Tocou no número.

O escritório em Pinheiros

O escritório do Ricardo não era de impressionar ninguém — e era isso que impressionava. Segundo andar de um prédio baixo em Pinheiros. Paredes brancas limpas. Dois quadros abstratos coloridos na parede principal. Uma mesa de madeira clara.

Uma caneta Montblanc que ele segurava como quem segura uma lembrança — porque era. Foi a Tata quem deu pra ele, no aniversário dele de quarenta anos, dois meses antes do divórcio dele.

Tata entrou sem bater. Sabia que podia.

Ricardo levantou os olhos da pasta que estava lendo. E quando viu quem era, alguma coisa no rosto dele se desorganizou por um segundo. Aquela coisa que ele guardava há cinco anos — desde a época em que ela aparecia no escritório no fim do dia só pra ouvir ele conversar sobre processos que ele já conhecia de cor.

Tata— Oi, Ricardo.

Ricardo— Oi, Tata.

Ele se levantou. Olhou pra ela com aquele olhar de quem lê o que a outra pessoa ainda não falou.

Ricardo— Você tá assustada.

Ela respirou fundo. Não veio chorar. Veio resolver.

Sentou na cadeira de couro caramelo da frente da mesa dele e contou tudo. A venda da cobertura. O almoço no Jardins com o senador Álvaro Queiroz. As perguntas dele que pareciam educadas mas tinham dentes. Os dois homens parando o Pedro na rua. A sensação de estar sendo seguida desde que entregou as chaves daquele apartamento.

Ricardo escutou em silêncio absoluto. As mãos dele paradas sobre a mesa. Nenhuma interrupção. Nenhuma pergunta. Só presença.

Quando ela terminou, ele esperou alguns segundos antes de falar. Aquela pausa profissional que advogado treina a vida inteira pra dar peso ao que vem depois.

Ricardo— Você entende o que você está me contando, Tata?

Tata— Entendo.

Ela já tinha entendido há três dias. Só precisava de alguém maior do que ela confirmar.

Ricardo se inclinou um pouco pra frente. Tirou os óculos. Olhou pra ela com aquele tipo de seriedade que não tem como fingir.

Ricardo— Esse homem tem advogado em escritório de mármore. Conexão com delegado de polícia. Controla três jornais grandes através de laranjas.

Ele respirou.

— E você tem uma chave duplicada e uma história.

História não derruba senador, Tata. Prova derruba.

O sábado na cobertura

Tata voltou à cobertura no sábado à tarde. Mas dessa vez não foi sozinha. Levou a Suzy.

A Suzy entrou na cobertura rindo alto, aquele riso de cabeleireira que ocupa qualquer espaço.

Suzy— Que coisa linda, Tata! Meu Deus, esse piso!

Ela tocou a madeira de cumaru com as costas da mão. Aquele gesto de quem aprecia qualidade sem fazer drama.

Beatriz observava da cozinha, e Tata viu no olhar dela que ela tinha entendido o jogo na primeira frase. A Suzy era o disfarce. A Tata vinha pra outra coisa.

Quando a Suzy se perdeu na varanda tirando foto da vista de São Paulo, Beatriz fez um gesto pequeno pra Tata com a cabeça. As duas foram até o quarto de hóspedes. Beatriz fechou a porta.

Aquele cuidado silencioso de quem aprendeu a viver fazendo as coisas em segredo.

Do fundo do closet, dentro de uma caixa de joias antiga que parecia vazia, Beatriz tirou um pen drive preto. Coisa simples. Do tamanho de uma moeda. Nada sofisticado. Nada dramático.

Beatriz— Cinco anos, querida.

A voz da Beatriz tinha aquela educação paulistana que sussurra mesmo em volume normal.

Beatriz— Cinco anos de gravações. Tudo que ele diz quando acha que ninguém tá escutando.

Tata sentiu o pen drive na mão como se pesasse vinte quilos. Porque pesava. Aquilo era uma bomba.

Beatriz— Violência psicológica sistemática. Ameaça. Corrupção. Conversa com gente de jornal. Tudo lá dentro.

A Beatriz fechou a mão da Tata em volta do pen drive.

— Eu guardei porque sabia que um dia eu ia precisar de verdade. Não de palavra de mulher. De verdade verdadeira. Agora você tem.

Tata olhou pra ela. Esperou.

Tata— Por que você tá me dando isso?

Beatriz deu um sorriso pequeno emocionado. Quase imperceptível.

Beatriz— Porque você tem um filho. E porque você tá com medo do jeito certo. Mulher com medo do jeito errado não age. Você tá agindo.

O retrovisor

Tata saiu do prédio com o pen drive na bolsa. Bem ali junto do batom e do cartão de crédito.

Suzy descia o elevador falando sobre uma cliente que tinha marcado corte na semana passada e nunca apareceu. Tata ouvia de longe, balançando a cabeça nos lugares certos.

A rua tava nublada. Aquele tipo de nuvem que não chove mas fica ameaçando o dia inteiro.

Quando Tata abriu a porta do carro, viu.

Audi preto. Três carros atrás do dela. Estacionado.

E dentro do Audi, perfil conhecido. Cabelo grisalho impecável. Terno cinza-chumbo.

Senador Álvaro Queiroz.

Ele não se mexia. Só estava lá. Olhando.

Tata sentou no banco do motorista com a Suzy ainda falando do cabelo da cliente. Ligou o motor. Antes de engatar a marcha, olhou pelo retrovisor.

Os olhos dele encontraram os dela. Não foi rápido. Não foi acidental. Foi o tempo certo — aquele tempo que diz exatamente “eu vi você vendo que eu tô aqui”.

Tata engatou a marcha. Saiu devagar. Sem pressa. Sem demonstrar nada.

Mas a mão dela tremeu no volante.

Suzy— Tá tudo bem, amiga?

Tata— Tá ótimo. Tá perfeito.

Não era verdade.

Agora ele sabia que ela sabia. E ela sabia que ele sabia.

O jogo de verdade, o jogo que importa, tava só começando.

Agora ele sabe que eu sei.