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O Sabor do Morro — Capítulo 10: O sabor de casa, um ano depois

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Um ano depois, na laje onde tudo começou, Davi recebe a proposta que une raiz e glória. Matteo volta com um convite que muda tudo — sem tirar nada de lugar.

O Sabor do Morro — Capítulo 10: O sabor de casa, um ano depois — cena da novela


O sol cai morno sobre o Cantagalo, aquele ouro derramado que só existe no Rio de janeiro quando o dia está morrendo de verdade. A laje do Sabor da Vó respira. Varal estendido com toalhas brancas da Dona Rosa balançando devagar, como se respirassem junto. Embaixo, na mesa de madeira que Davi herdou da avó, pratos aguardam — sempre aguardam neste domingo que não é diferente de nenhum outro domingo há um ano.

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Mas hoje tem alguém sentado numa cadeira de plástico azul, de pés descalços quase tocando o chão. Matteo Colombo. Elegante de um jeito que cadeira de plástico nunca pediu pra ser. Ele mastiga devagar, os olhos fechados, como quem reza sem falar em voz alta.

Davi observa da cozinha aberta. Não consegue desviar.

O retorno do que não saiu

Matteo apareceu duas horas atrás, descendo da escadaria de pedra com uma mala pequena e um sorriso que Davi não esperava. Abraço longo. Sem palavras — homens que sabem cozinhar juntos não precisam de muito mais que isso.

Agora ele come. A mesma bolonhesa. O molho que mistura dendê com manjericão, a massa que Davi faz com as mãos, o segredo que a Vó Lurdes levou pra túmulo há oito meses e deixou vivo no corpo do neto.

Matteo pousa o garfo. Fica em silêncio. O silêncio que Davi aprendeu a reconhecer — não é vazio, é plenitude. É quando alguém prova alguma coisa que não consegue explicar com palavras.

“Exatamente igual.”

Três palavras. Matteo levanta os olhos. “Um ano. Mesma receita, mesma mão, mesma laje, mesma luz. Davi, isso é raro.”

Júlia sai da cozinha com Maria Clara pendurada na saia. A menina quer colocar os talheres na mesa — tarefa que pediu pra fazer toda semana, religiosamente, como quem cuida de um ritual. Ela coloca o garfo ao lado do prato de Matteo com seriedade de adulto.

“Tia Júlia, esse senhor é o chefe?” pergunta Maria Clara.

“Esse senhor é o amigo,” responde Matteo antes de Júlia conseguir falar. Ele tira a mala do bolso da jaqueta — não é mala, é um envelope branco, pesado, que ele coloca sobre a mesa.

A proposta que volta

Dona Rosa aparece no parapeito da laje, secando as mãos numa toalha. Vê o envelope. Conhece envelopes — passaram por muitas mãos nesta casa, muitas promessas, muitas saídas.

Matteo abre devagar. Dentro, convite impresso em papel caro. Festival Gastronômico Internacional de São Paulo, três meses. Ao lado dos maiores chefs do mundo. Chef Davi Oliveira — nome dele escrito em tipo que parecia feito pra durar.

“O sabor de casa é o que me mantém inteiro.”

Davi não sabe se disse isso em voz alta ou se Matteo leu no rosto dele. Mas está ali, flutuando sobre a mesa como verdade.

“Você não vai embora,” diz Matteo, e não é pergunta. “Você vai ficar aqui, cozinhando nesta laje, alimentando esta comunidade, todo domingo. E a cada três meses, você vem pra São Paulo. Traz uma receita. Ensinamos pra meia dúzia de chefs que precisam aprender que gastronomia não é só técnica — é raiz.”

Dona Rosa senta. As pernas não aguentam de pé.

“Sociedade oficial,” continua Matteo. “Seu nome na Cantina da Nonna. Seu nome no festival. Seu nome — e o nome da sua vó — em cada prato que a gente servir que vier de aqui.”

Júlia aperta a mão de Davi por baixo da mesa. Maria Clara continua colocando talheres, sem entender, entendendo tudo.

A laje ao crepúsculo

Mais tarde, quando Matteo está dormindo na sala — cadeira de plástico não é cama, mas Matteo dorme como quem aprendeu a descansar em qualquer lugar — Davi sobe pro parapeito da laje sozinho.

O Rio inteiro está ali embaixo. Copacabana acesa, a comunidade colorida como sempre, as casas que ele conhece desde antes de saber o que era conhecer. O Cantagalo respira junto com a cidade. Não é nada de especial. É tudo que importa.

Júlia sobe atrás. Ele não ouve os pés dela — aprendeu a reconhecê-la pelo cheiro, pela presença que desloca o ar. Ela abraça por trás, a cabeça encostada nas costas dele.

“Você vai?” pergunta ela, e a voz dela é a voz de dez anos de espera, de paciência que virou coragem.

“Já estou aqui,” responde Davi. “Sempre estive.”

Ela já sabia. Mas precisava ouvir.

O pôr do sol desce morno e final. Não é triste — é completo. É a sensação de quem chegou onde precisava estar, não onde o mundo dizia pra chegar. É Davi com as mãos que aprenderam a cozinhar na laje, o coração que aprendeu a amar nesta rua, a voz que aprendeu a falar olhando nos olhos de Júlia.

Lá embaixo, na cozinha que Vó Lurdes deixou viva, a receita continua. Não é segredo mais — é herança. É o que passa de mão em mão, de domingo em domingo, de coração em coração.

A comunidade colorida brilha no crepúsculo. A laje respira. E o sabor de casa — aquele que nenhum festival, nenhuma crítica, nenhuma estrela consegue explicar — permanece inteiro.