O café da manhã esfriava na xícara de porcelana. Larissa o observava com um sorriso que não alcançava os olhos — aquele sorriso que aprendera a usar nos últimos vinte e quatro horas, uma máscara tão perfeita que até ela mesma quase acreditava. Rafael entrava pela cozinha, o cabelo ainda úmido do chuveiro, e o coração dela não acelerou. Apenas registrou: ele estava ali, respirando, fingindo normalidade, e ela tinha todo o tempo do mundo.
O silêncio antes da tempestade é sempre assim, pensou, enquanto levava a xícara aos lábios.
— Dormi bem? — perguntou Rafael, beijando sua testa como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse estado dentro de Mariana na sala de estar, a apenas dez metros dali.
Larissa não piscou.
— Melhor impossível — respondeu, e era verdade. Havia dormido três horas, mas acordara com a mente cristalina, cada detalhe do plano já traçado como linhas de um mapa de guerra.
O Jogo das Aparências
Rafael puxou a cadeira ao seu lado. Ela viu a culpa nos dedos que tremiam segurando a caneta — ele folheava o jornal sem ler uma única linha. Ele sabia que ela sabia. A questão era quanto tempo levaria para ele tentar se explicar.
— Larissa, sobre ontem… — começou, mas ela o interrompeu com uma risada leve.
— Ontem foi intenso. Precisamos de espaço um tempo, você não acha? — disse, estudando sua reação. Os olhos dele se dilataram. Medo? Alívio? Esperança de que ela tivesse simplesmente acreditado em alguma mentira? — Estou pensando em viajar para São Paulo alguns dias. Minha mãe quer me ver.
Rafael deixou o jornal cair.
— Você está indo embora?
— Você não quer que eu vá? — perguntou Larissa, inclinando a cabeça. Seu tom era doce, venenoso. — Achei que seria um alívio.
Ele se levantou bruscamente, passando a mão pelo cabelo. Aquele gesto nervoso que ela conhecia tão bem, que agora lhe causava nojo puro.
— Não é assim. Eu queria conversar sobre… sobre o que você viu.
E a minha dignidade não tem preço — respondeu Larissa, seus olhos encontrando os dele com frieza de lâmina. — Especialmente não por uma mentira.
Ela se levantou, deixando a xícara na mesa. O café ainda fumegava, intocado. Rafael estendeu a mão, mas ela já estava saindo da cozinha, deixando-o ali, sozinho, com a certeza de que algo havia mudado para sempre.
A Ligação
No quarto, Larissa fechou a porta e tirou o celular do bolso. A mensagem de Victor Ashford estava lá, como prometido: um endereço em Zona Sul, um horário — 14h — e uma única frase: Venha sozinha.
Victor. Aquele nome que sua mãe sussurrava quando pensava que Larissa dormia. Aquele homem que desapareceu da vida da família quando ela tinha sete anos, deixando para trás apenas fotografias guardadas em uma caixa no guarda-roupa e um silêncio que ninguém nunca explicou.
Ela digitou a resposta com os dedos tremendo — não de medo, mas de adrenalina pura.
Estarei lá.
Seu telefone vibrou segundos depois. Uma chamada. Victor. Ela respirou fundo antes de atender.
— Larissa. — Sua voz era grave, carregada de um sotaque que ela não conseguia identificar. Inglês? Europeu? — Soube do que Rafael fez. Sinto muito.
— Como você soube? — perguntou ela, direto ao ponto.
— Porque eu conheço Rafael desde antes de você nascer. E porque sua mãe me ligou ontem à noite, desesperada, querendo saber se eu podia ajudá-la a ajudá-lo. — Ele fez uma pausa significativa. — Ela não sabe que vou ajudá-la a destruí-lo.
O coração de Larissa bateu mais forte.
— Por que faria isso?
— Porque Rafael Monteiro não é quem você pensa que é. E porque sua família merece saber a verdade sobre muita coisa. Incluindo sobre mim. — Outro silêncio. — Às 14h, você saberá tudo.
A ligação caiu.
A Tentativa de Explicação
Rafael a encontrou no corredor quando ela descia as escadas, já vestida, pronta para sair. Ele bloqueou seu caminho — não com agressividade, mas com desespero.
— Você não pode sair assim. Nós precisamos falar.
— Sobre o quê, Rafael? — perguntou Larissa, seu tom tão calmo que assustava. — Sobre como você me mentiu? Sobre como você a tocou na minha casa, no meu espaço? Ou sobre quantas vezes isso já aconteceu antes?
— Uma vez. Apenas uma vez. Mariana me seduziu e eu… — Ele respirou fundo, as mãos levantadas. — Eu cometi um erro terrível, mas foi um momento de fraqueza. Eu te amo, Larissa. Você precisa saber disso.
Ela desceu o último degrau, ficando a apenas alguns centímetros dele.
— Se você realmente me amasse, não teria sido fraco. Teria sido forte. — Ela tocou seu rosto com a ponta dos dedos, e viu ele fechar os olhos, esperando talvez por perdão. Em vez disso, ela sussurrou: — Mas agora é tarde.
Larissa o contornou e caminhou em direção à porta. Rafael a chamou, mas ela não se virou. Não havia volta. Ele havia escolhido destruir o que eles tinham, e agora ela escolheria como destruir tudo que ele era.
O Encontro
O endereço levava a um prédio comercial discreto na Zona Sul. Larissa subiu as escadas, cada passo ecoando no corredor vazio. A porta do escritório 42 estava aberta.
Victor Ashford estava de costas para ela, olhando pela janela para a cidade. Ele era mais velho do que ela imaginava — cabelos grisalhos, ombros largos, aquele tipo de homem que carregava poder como uma segunda pele.
— Você tem os olhos da sua mãe — disse ele, sem se virar. — Mas a determinação é sua.
Larissa entrou e fechou a porta atrás de si.
— Quem é você, de verdade?
Victor se virou. Seus olhos eram da mesma cor que os dela — um detalhe que ela nunca havia notado nas fotografias antigas.
— Sou alguém que Rafael magoou muito, há muito tempo. E agora, você e eu vamos nos certificar de que ele nunca magoa ninguém novamente. — Ele sorriu, mas não era um sorriso gentil. — Você quer vingança, Larissa? Eu posso ensinar você tudo que você precisa saber.
Ela se aproximou dele, e naquele momento, no reflexo da janela, viu duas silhuetas se alinharem — predadora e presa, mas qual era qual ainda estava por se revelar.
Do outro lado da cidade, Rafael recebia uma mensagem de Mariana: Precisamos conversar. Algo está errado com Larissa.
