O piso dos fundos do quiosque brilhava sob a lâmpada amarela, coberto por poças de água gelada que escorriam das caixas de isopor. O cheiro de peixe fresco misturava-se ao metal úmido das facas deixadas sobre a bancada. Um celular vibrava contra uma caixa vazia, luz azul piscando no escuro.
Mateus limpava as mãos no avental sem conseguir tirar os olhos do aparelho. Cada vibração parecia ecoar dentro do peito. Ele sabia que as mensagens ainda estavam lá, nomes trocados, promessas registradas.
O celular ao lado da caixa vazia
Sakura entrou pelos fundos carregando o balde de restos. Parou ao notar o silêncio estranho. Mateus não a cumprimentou. Apenas continuou a esfregar as mãos.
O rapaz nunca fora quieto assim. Ela largou o balde e se aproximou da bancada. O celular vibrou outra vez. Mateus o virou de cara para baixo com gesto rápido demais.
— Deixa eu ver se é do fornecedor — disse ela, estendendo a mão.
Ele não respondeu. O olhar fugiu para o chão molhado.
A prova que caiu da gaveta
Hiroshi apareceu na porta dos fundos, silencioso como sempre. Observou o ajudante por um segundo a mais. O velho notava o suor na testa do rapaz mesmo com o frio da noite.
Sakura abriu a gaveta para guardar o talão de pedidos. Um papel impresso escorregou e caiu no chão. Ela pegou. Era um comprovante de transferência. O valor não era grande, mas o destinatário era Mateus Dias e o pagador, uma conta de restaurante conhecida.
O nome de Ricardo aparecia no cabeçalho.
Ela leu duas vezes. O coração bateu mais devagar, como se o tempo tivesse resolvido arrastar-se.
Você vendeu a história
Mateus deu um passo para trás quando viu o papel na mão dela. Hiroshi ficou imóvel na porta.
— Foi você — disse Sakura. A voz saiu baixa, cortante. — Você entregou meus documentos para ele.
Mateus engoliu seco. Não negou. Apenas olhou para o chão.
Você não roubou uma receita; vendeu a história de quem confiava em você.
O silêncio que veio depois pesou mais que qualquer grito. Hiroshi fechou os olhos por um instante.
— Ricardo também perguntou por um registro antigo — confessou Mateus, quase num sussurro. — Queria saber o que o velho guardava de quarenta anos atrás.
Sakura guardou o comprovante no bolso. O celular parou de vibrar. Só restou o som da água pingando.
O nome que não some
Ela saiu sem fechar a porta. O vento frio entrou e balançou a lâmpada. Mateus ficou ali, de pé, com as mãos ainda molhadas de gelo derretido. Hiroshi não se moveu.
Do lado de fora, o nome do quiosque refletia na poça d’água, tremendo sob a luz dos lampiões vermelhos do mercado.
