O chão dos fundos do quiosque brilhava sob a luz amarelada de uma única lâmpada. Caixas de isopor empilhadas formavam um labirinto instável, e o cheiro de peixe fresco misturava-se ao gelo derretido que escorria devagar.
Um celular vibrava sem parar ao lado de uma caixa vazia. A tela iluminava o rosto de Mateus, que tentava apagar mensagens uma a uma com dedos trêmulos.
O celular que não calava
Sakura empurrou a porta dos fundos e encontrou o ajudante encolhido no canto. Mateus largou o aparelho no chão molhado, o som abafado do gelo.
— Já ia embora — murmurou ele, sem olhar para ela.
Hiroshi apareceu na porta, silencioso, observando o rapaz com olhos que já haviam visto demais.
A gaveta que guardava a prova
Sakura abriu a gaveta do balcão improvisado atrás das caixas. Um comprovante de transferência impresso em papel fino escorregou para o chão. O nome de Ricardo Sakamoto aparecia claro no destinatário.
O valor era pequeno, mas o recado era grande. Ela leu a mensagem que acompanhava o depósito: confirmação de que a inscrição dela no festival havia sido denunciada.
Mateus ficou paralisado. O silêncio do mercado noturno pesava como água parada.
A mão que vendeu o segredo
— Você entregou meus documentos por uma promessa de emprego — disse Sakura, a voz baixa, cortante. O papel tremia entre seus dedos.
Mateus engoliu seco. Hiroshi deu um passo à frente, mas não falou.
Você não roubou uma receita; vendeu a história de quem confiava em você.
Mateus confessou, quase sem voz, que Ricardo também buscava um registro antigo guardado por Hiroshi — algo ligado à técnica que tornara o chef famoso.
A culpa sufocava o ar mais que o cheiro de peixe.
Sakura guardou o comprovante no bolso. O celular parou de vibrar, mas a noite ficou ainda mais pesada.
