A cozinha respira luz de manhã. Davi está sozinho entre as panelas — a mesma cozinha, mas diferente agora. A foto emoldurada da Vó Lurdes pende acima do fogão, enquanto vasinho com flores frescas recém-colhidas no beco desperta um aroma que não é de comida. Ela sorri naquela imagem — serena, como se soubesse de tudo que viria depois. Ele a fitou por um segundo a mais que o normal antes de ligar o fogão.
Dona Rosa entra carregando caixas de tomate. Seu rosto ainda carrega o peso dos últimos meses, mas há algo novo ali — uma determinação muda. Ela está tentando voltar, pensa Davi. Ela o vê e sorri fraco.
— Chegou tudo que pediu. O fornecedor do Cantagalo mandou recado que quer conversa.
Davi acena. A mãe pousa a caixa com cuidado, como se cada tomate fosse frágil demais.
O Telefone que Traz Rumo
Ao meio-dia, quando a cozinha enfim silencia antes do almoço, o celular vibra. Matteo. Davi já conhece aquele toque — significa negócio.
— Davi, meu filho. Você está pronto?
Ele sente o peito apertar. Pronto para quê?
— Tenho uma sociedade pra você. Sabor da Vó número dois. Leblon. Mesma receita, ambiente novo. Você na cozinha, eu na administração. Três meses pra abrir.
Silêncio. Davi olha pra foto da avó.
— E o restaurante daqui?
— Você treina alguém. Ou sua mãe continua. Mas você, Davi… você tem que ir pro mundo. A vó já sabia disso.
A frase bate como verdade que dói. Ele sabe que Matteo tem razão. Sabe que Lurdes sussurrou isso na varanda naquela última noite — não fique pequeno por minha causa, filho.
— Deixa eu pensar.
— Não pense muito. As portas abrem uma vez.
Davi desliga. Olha em volta. Dona Rosa está na sala contando dinheiro do caixa, e ele sente aquele medo antigo dela — o de ser deixada para trás.
A Noite que Demora Mil Anos
Na laje, quando o sol cai laranja sobre o Cantagalo, Júlia aparece com Maria Clara. A menina corre pro colo de Davi, que a levanta alto enquanto ela grita de alegria. Ela tem os olhos da mãe, ele pensa toda vez.
Júlia senta ao lado dele na cadeira velha. Eles ficam em silêncio olhando pra cidade. Ela sabe que algo mudou — sempre sabe.
— Matteo ligou?
— Como você soube?
— Porque você está com aquele rosto de quem precisa decidir entre dois caminhos e os dois machucam alguém.
Davi respira fundo. Dez anos. Dez anos carregando aquelas palavras na garganta, e agora elas saem como quem tira uma pedra do peito.
— Júlia, eu tô apaixonado por você desde sempre.
Ela ri. Lágrimas escorrem. Maria Clara pede mais suco.
— Você acha que eu não sabia? Que eu não via você olhando pra mim enquanto eu fingia que não via?
— Por que você nunca falou nada?
— Porque você precisava falar. E você acabou de falar.
Ele pega na mão dela. A mão é quente, está tremendo um pouco.
— Vou levar você comigo, Júlia. Vou levar você pro mundo inteiro.
Ela encosta a cabeça no ombro dele. Maria Clara dorme entre eles dois, boca aberta, enquanto a cidade piscava embaixo.
A Manhã Depois de Tudo Mudar
Davi liga pra Matteo cedo. Antes de Dona Rosa acordar. Antes de pensar demais.
— Aceito. Mas com uma condição.
— Fala.
— Você treina minha mãe pra gerenciar o de cá. Ela fica com percentual. E a foto da Vó Lurdes vai nas duas paredes — mesma moldura, mesmo lugar.
Matteo ri do outro lado.
— Você é o primeiro que coloca a avó na negociação. Tá certo. Quatro meses pra inauguração. Você vem pra São Paulo na próxima semana pra desenharmos a cozinha.
Davi olha pra foto acima do fogão.
Vó, a gente vai levar você comigo. Pro mundo inteiro.
Dona Rosa entra na cozinha e sente algo diferente no ar. Vê o filho olhando pra foto da mãe com aquele sorriso que ela não via há anos.
— Você decidiu?
— Nós decidimos, mãe. Juntos.
Ela sente os olhos queimarem. Sabe o que isso significa — seu filho está pronto. E ela, finalmente, também está.
Lá fora, o Cantagalo acordava colorido, e em São Paulo, Matteo já fazia ligações marcando a data da inauguração. Em quatro meses, aquela foto sairia da encosta e chegaria aos Jardins, depois ao Leblon. Mas antes disso, havia cozinha pra desenhar, receitas pra refinar, e um amor finalmente respirando solto numa laje que o vira nascer.
