Sábado de manhã no Cantagalo. A laje respira com o vento que desce de Copacabana, trazendo sal e saudade. Vó Lurdes está sentada na poltrona de vime surrado, cobertor de crochê nas pernas, os olhos fixos no horizonte que ela decorou há meio século — a mesma vista, o mesmo silêncio que agora soa diferente.
Davi a observa da porta do quarto. Ela não se virou. Sabe que ele está ali.
A última receita
Ele desce pra cozinha no escuro da manhã ainda morna. As mãos já sabem o caminho: sal grosso no fundo da panela, cebola cortada em meia-lua, alho amassado com o lado da faca. O molho italiano que aprendeu em São Paulo dança junto com o dendê que herdou daqui, com a pimenta-de-cheiro que a Vó plantou na pequena horta da varanda há quarenta anos.
Dona Rosa passa pela cozinha envolvida em um roupão cinzento, cabelo solto, olhos inchados. Ela não dorme mais direito desde que voltou com Davi. Observa o filho mexendo a panela e sabe — sem palavras, sabe.
Ele tá se despedindo.
Davi coloca a bolonhesa numa bandeja de louça branca, a mesma que a Vó usava nos domingos de festa. Sobe pra cozinha dela carregando aquilo como se fosse o cálice. Abre a porta devagar. Vó Lurdes não se vira, mas levanta uma mão enrugada como convite.
Ele se ajoelha ao lado da poltrona. Não é gesto de filho — é gesto de quem pede permissão pro resto da vida.
A Vó tira a colher da bandeja e prova. Apenas um gole. Fica em silêncio enquanto a saliva trabalha, enquanto a língua reconhece cada camada. Seus olhos piscam devagar.
Sabor da Vó é você agora, filho.
Davi não consegue respirar. Ela coloca a colher de volta, toca a mão dele — aquela mão que já amassou massa, que já plantou, que já acariciou a bochecha dele mil vezes — e a deixa no seu cabelo.
Ele entende. Entende que isso não é elogio. É entrega.
O silêncio da noite
À noite, a mesa do jantar está posta. Arroz branco, feijão morno, um peixe assado que Dona Rosa preparou com as mãos tremendo. Vó Lurdes senta na cabeceira, coberta num xale azul que Davi nunca tinha visto, e sorri — não aquele sorriso de quem disfarça dor, mas aquele sorriso de quem finalmente descansa.
Ela não come. Só assiste.
Assiste Davi cortando o peixe, Dona Rosa derramando água no copo, o neto da vizinha lá embaixo gritando na rua, a vida acontecendo no ritmo de sempre. Assiste como quem está de mala pronta, esperando a hora de embarcar.
Dona Rosa tenta forçar um garfo na mão da mãe. Vó Lurdes nega com um gesto que é quase uma carícia. Não é rejeição — é encerramento. Ela já terminou.
Davi sente o chão desaparecer sob os pés. Aquele colo que o embalou, que o repreendeu, que o aplaudiu nas sombras — aquele colo que prometeu ficar ali pra sempre — está se despedindo em silêncio.
A mão que não solta
Depois do jantar, quando Dona Rosa recolhe os pratos com os olhos vermelhos, Davi fica com a Vó. Senta no chão da varanda, de costas pra ela, deixando a cabeça encostar na poltrona. Sente os dedos dela penteando o cabelo que ele usa desde criança — cabelo preto que vem dela, que vem da Paraíba, que vem de gerações que ele nem conhece de nome.
Nenhum dos dois fala. O que sobra pra dizer quando você percebe que essa é a última vez que aquela mão vai pentear seu cabelo?
A noite desce sobre o Cantagalo como um pano de veludo. As luzes da cidade piscam embaixo — Copacabana, Ipanema, a vida que pulsa em outro ritmo, num outro patamar. Davi sempre olhou pra aquelas luzes como se fossem uma promessa. Agora, sentindo os dedos da avó no seu cabelo, entende que a promessa verdadeira estava aqui, neste chão de laje, nesta poltrona surrada, nesta mão que segura sem apertar.
O colo que ele já sabia que ia perder.
Vó Lurdes para de pentear. Davi ouve o silêncio — aquele silêncio que em novela diz mais que qualquer grito. Ele se vira pra vê-la, mas ela está com os olhos fechados, serena, como se já estivesse em outro lugar. Uma lágrima desce pela bochecha dele enquanto ele segura aquela mão que agora pesa menos.
O domingo que não chega igual
Domingo de manhã. Davi sai do quarto da Vó com passos que tentam não fazer barulho. Fecha a porta devagar, aquela porta que rangia quando ele era criança e acordava assustado com pesadelo — e a Vó abria assim, devagar, deixando a luz do corredor desenhar sua silhueta protetora.
Dona Rosa está na cozinha, sentada numa cadeira, segurando uma xícara de café que esfriou. Não bebe. Só segura.
Davi se senta ao lado dela. Nenhum dos dois toca no assunto. Porque já foi dito. Porque alguns adeus não precisam de palavras — precisam de presença. Precisam de um filho ao lado da mãe, numa cozinha que cheira a bolonhesa, enquanto lá fora o morro acorda e a vida segue seu ritmo impiedoso.
O telefone de Davi vibra no bolso. É Matteo, de São Paulo, mandando um áudio. Davi não abre agora. Guarda aquela vibração como quem guarda uma carta — sabe que dentro dela há palavras que vão mudar de novo o curso do que ele é.
Mas por enquanto, neste domingo que não chega igual, ele fica aqui. Neste chão. Com esta mulher que ainda precisa dele, mesmo que não coma mais, mesmo que seus olhos já estejam virando pra um outro lado.
