A luz amarelada do abajur batia nos retratos pendurados na parede da sala modesta, onde o cheiro de madeira velha se misturava ao de chá de ervas deixado esfriando na mesa. Hiroshi sentava em silêncio, os olhos fixos na fotografia rasgada que mostrava dois jovens sushimen diante de um restaurante antigo. Sakura parou na porta, o coração apertado pela tensão que pairava desde que Mateus confessara a traição.
O vento batia na janela e fazia o papel da foto tremer, como se o passado tentasse escapar do enquadramento. Ela deu um passo à frente, as mãos ainda úmidas do trabalho no quiosque. O avô não erguia o olhar.
A fotografia que não cabia mais na moldura
Hiroshi respirou fundo e indicou a cadeira ao lado. Sakura sentou, o silêncio entre eles carregado de décadas de segredo. Ele apontou para o rapaz da foto, o dedo trêmulo.
— Eu trabalhei com o avô dele. Criei o corte que ele diz ter inventado.
O olhar de Sakura endureceu. Ela já sabia que Ricardo procurava documentos antigos, mas nunca imaginara que o avô carregava a prova no próprio corpo.
O movimento que o registro apagou
Hiroshi contou sem pressa, cada palavra como uma lâmina. O avô de Ricardo registrara a técnica como própria depois que ele se recusara a vender o quiosque. Orgulho custara caro. Sakura sentiu o chão faltar quando entendeu que o nome da família Sakamoto nascera de um roubo.
Roubaram meu movimento, registraram meu silêncio e chamaram isso de tradição.
Ela se levantou, o sangue latejando nas têmporas. O avô estendeu a mão, impedindo-a de sair.
O caderno que a moldura guardava
Com gesto lento, Hiroshi removeu o verso da moldura da fotografia rasgada. Dentro, um caderno amarelado apareceu, as datas anteriores ao primeiro registro comercial da família Sakamoto. Sakura folheou as páginas, o cheiro de tinta antiga subindo como prova viva.
— Eles nunca esperaram que eu guardasse isso — murmurou Hiroshi. Sakura fechou o caderno, o peso dele nas mãos maior que qualquer diploma. O passado agora tinha nome e data.
A porta da frente rangeu com o vento. Sakura guardou o caderno no bolso, o olhar já voltado para o festival que se aproximava.
